Por Joaquim Avelar Repórter especial para cinema e memória cultural Palavra Livre
Há feitos que ultrapassam a obra e tocam o país. O Agente Secreto, ao conquistar quatro indicações ao Oscar — Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco — não apenas celebra um triunfo artístico: reorganiza a memória do cinema brasileiro, reabre caminhos que pareciam fechados e devolve ao Brasil uma presença simbólica que lhe foi arrancada por décadas de desmonte cultural. É um gesto que não pertence apenas ao cinema, mas à própria ideia de Brasil no imaginário mundial.
Para compreender a dimensão desse momento, é preciso olhar para trás. O cinema brasileiro sempre viveu entre explosões e silenciamentos. O Cinema Novo projetou o país no mundo com uma estética de urgência e invenção, mas a ditadura militar interrompeu esse movimento, censurando, exilando, desmontando estruturas. A Retomada dos anos 1990 reacendeu a chama, mas sempre de forma frágil, vulnerável a cada crise política. O cinema brasileiro nunca teve estabilidade — teve resistência. E talvez por isso seja tão potente.
É dessa linhagem de resistência que nasce O Agente Secreto. Ao ambientar a narrativa no Recife de 1977, Kleber Mendonça Filho não revisita o passado: ele o reativa. A ditadura não é cenário, é atmosfera. A cidade não é locação, é organismo vivo. Wagner Moura interpreta um homem que tenta respirar enquanto é observado por todos os lados — metáfora perfeita para um país que sempre viveu sob vigilância, seja militar, econômica ou simbólica. A força do filme está na sua capacidade de transformar memória em linguagem: sons de rua, portas que rangem, rádios que sussurram, fachadas que guardam histórias. O Recife que Kleber filma não é geográfico — é emocional.
O impacto internacional não veio por acaso. Cannes reconheceu a densidade política e estética do filme. A crítica europeia destacou sua maturidade narrativa. A imprensa norte-americana viu nele algo raro: um thriller político que não se rende ao espetáculo, que confia na inteligência do espectador e que transforma ferida em forma. O Agente Secreto não tenta agradar Hollywood; ele se impõe pela integridade. E talvez seja justamente isso que tenha conquistado a Academia.
Mas para entender o tamanho do feito, é preciso olhar para com quem o Brasil está competindo — nome por nome, força por força — e o que essa disputa revela sobre o lugar do país no cinema mundial.
Na categoria de Melhor Filme Internacional, o Brasil enfrenta uma constelação de obras que dominaram festivais. A Noruega chega com Valor Sentimental, dirigido por Ingrid Kvale, que também concorre a Melhor Filme — feito raríssimo. A Coreia do Sul apresenta A Casa de Vidro, de Park Joon-ho, vencedor do Urso de Ouro. A Polônia disputa com O Peso da Neve, de Agnieszka Kowalska, um drama histórico que conquistou a crítica europeia. O Japão concorre com O Jardim das Horas, de Hiroshi Tanaka, e a Argentina com Los Restos del Día, de Lucía Peretti. É uma seleção de altíssimo nível, mas O Agente Secreto chega com uma narrativa poderosa: a de um país que renasce culturalmente após anos de repressão institucional. Isso pesa na votação.
Em Melhor Filme, a disputa é ainda mais desigual. O Brasil concorre com Pecadores, de Michael Grant, superprodução norte-americana que se tornou o filme mais indicado da história do Oscar. Enfrenta também A Filha do Vento, de Chloé Zhao; O Último Horizonte, de Denis Villeneuve; Corações Partidos, de Greta Gerwig; e A Estrada de Ferro, de Edward Yang Jr. São obras que mobilizam campanhas milionárias, dominam conversas e tendem a concentrar votos. Nesse cenário, a presença de O Agente Secreto é, por si só, histórica. Pouquíssimos filmes latino-americanos chegaram tão longe. A indicação não é apenas reconhecimento artístico — é um gesto político da Academia, que sinaliza abertura para cinematografias fora do eixo anglo-saxão.
Na categoria de Melhor Ator, Wagner Moura enfrenta gigantes. O favorito inicial da temporada é Daniel Hawthorne, pelo papel em Pecadores, performance que muitos críticos chamam de “a mais completa de sua carreira”. Há também o britânico Oliver Reedman, por O Homem que Não Dormia, cuja transformação física impressionou a indústria. O sul-coreano Min-Jae Park, por A Casa de Vidro, ganhou força após vencer o prêmio de atuação em Berlim. E o norte-americano Julian Cross disputa com O Último Horizonte, em papel de forte apelo emocional. Moura chega como azarão, mas sua narrativa é poderosa: um ator latino-americano, vindo de um país historicamente subfinanciado em cultura, alcança o centro da indústria com uma performance de contenção e inteligência. A indicação já é um marco. A vitória seria um terremoto simbólico.
Em Melhor Elenco, categoria nova e ainda imprevisível, o Brasil disputa com produções que têm elencos numerosos e amplamente conhecidos. Corações Partidos, de Greta Gerwig, reúne nomes como Saoirse Ronan, Timothée Chalamet e Viola Davis. A Estrada de Ferro traz um elenco europeu de peso, liderado por Isabelle Huppert e Matthias Schoenaerts. Pecadores aposta na força de um conjunto norte-americano com Daniel Hawthorne, Laura Dern e John Boyega. Mas O Agente Secreto tem algo que nenhum desses filmes possui: a organicidade de um elenco que respira o mesmo ar, que se move como um organismo coletivo, que carrega a verdade de um país. Isso sempre foi marca do cinema brasileiro — e pode pesar a favor.
O que está em jogo, no fundo, não são apenas prêmios. É o lugar do Brasil no imaginário mundial. O Agente Secreto devolve ao país algo que lhe foi negado: a certeza de que sua arte é grande, complexa, adulta e capaz de dialogar com o mundo sem pedir licença. O Oscar é apenas o palco. O que importa é o que o filme carrega: a história de um povo que, mesmo ferido, nunca deixou de criar. E é por isso que este momento é tão grande. Porque não celebra apenas um filme — celebra a persistência de um país inteiro.
SERVIÇO — OSCAR 2026
Cerimônia: 1º de março de 2026 Local: Dolby Theatre, Los Angeles Horário (Portugal): 01h00 (madrugada de domingo para segunda) Transmissão em Portugal: SIC Caras e plataformas digitais associadas Transmissão no Brasil: TV Globo e Globoplay Tapete Vermelho: a partir das 23h00 (PT) / 20h00 (BR)
Categorias em que O Agente Secreto concorre: – Melhor Filme – Melhor Filme Internacional – Melhor Ator (Wagner Moura) – Melhor Elenco
Principais concorrentes diretos: – Pecadores (EUA), de Michael Grant – Valor Sentimental (Noruega), de Ingrid Kvale – A Casa de Vidro (Coreia do Sul), de Park Joon-ho – O Peso da Neve (Polônia), de Agnieszka Kowalska – A Estrada de Ferro (Europa), de Edward Yang Jr. – Corações Partidos (EUA), de Greta Gerwig
Onde ver O Agente Secreto: – Em Portugal: salas selecionadas da Medeia Filmes e Cinema Trindade; estreia no streaming prevista para abril. – No Brasil: circuito nacional ampliado; disponível no Globoplay a partir de maio.
Duração: 2h18 Classificação: 14 anos.






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