18 anos de Palavra Livre — independência, resistência e futuro
Entrevista com Salvador Neto, fundador e editor-chefe
Por Marina Duarte – Redação Palavra Livre
Marina Duarte: Salvador, o Palavra Livre chega aos 18 anos num mundo profundamente conturbado. Guerras, retrocessos democráticos, neofascismo em ascensão. Como é existir como projeto editorial independente neste cenário?
Salvador Neto: É existir em tensão permanente. O mundo vive um ciclo de brutalidade — guerras que se multiplicam, discursos de ódio que se normalizam, democracias que se fragilizam por dentro. O neofascismo não chega com botas; chega com algoritmos, com desinformação, com a promessa fácil de ordem. Nesse contexto, um projeto independente como o Palavra Livre não é apenas um espaço editorial: é um ato político no sentido mais profundo. É a recusa em aceitar o empobrecimento da linguagem e da consciência. É a defesa da complexidade num tempo que idolatra simplificações perigosas.
Marina Duarte: A palavra “independência” ganha outro peso quando o mundo se radicaliza. Como o Palavra Livre se mantém fiel a ela?
Salvador Neto: Com coragem e com limites muito claros. A independência não é uma bandeira bonita; é uma prática que custa. Custa recusas, custa portas que se fecham, custa caminhos mais longos. Mas é ela que nos permite olhar para o mundo sem filtros impostos. Num tempo em que tantos se vendem, manter-se livre é quase um ato de teimosia ética. E eu prefiro ser teimoso a ser cúmplice.
Marina Duarte: Falemos de sustentabilidade. Como financiar um projeto independente num mundo que valoriza velocidade e superficialidade?
Salvador Neto: Com comunidade. O Palavra Livre nunca viveu de grandes financiadores. Viveu de pequenos apoios, de colaborações, de trabalho voluntário, de parcerias éticas e, sobretudo, de uma convicção: a palavra tem valor. Agora, aos 18 anos, estamos a estruturar um modelo mais claro de arrecadação de fundos — transparente, ético e participativo. Queremos que quem acredita no projeto possa contribuir para que ele continue vivo e livre. É um pacto de confiança.
Marina Duarte: Essa arrecadação de fundos é uma novidade importante. O que muda com ela?
Salvador Neto: Muda a relação com o leitor. Deixa de ser apenas público e passa a ser parte da construção. A ideia é criar um modelo de apoio recorrente, onde cada pessoa contribui com o que pode. Não é pagar por conteúdo; é investir na existência de um espaço independente. É garantir que a palavra continue livre, crítica e responsável.
Marina Duarte: O projeto nasceu no Brasil, mas hoje também respira Portugal. Como essa travessia moldou o olhar editorial?
Salvador Neto: Ela ampliou. O Brasil me deu urgência; Portugal me deu profundidade. O Brasil me ensinou a lutar; Portugal me ensinou a escutar. O Palavra Livre é um corpo que carrega dois territórios, duas histórias, duas feridas e duas esperanças. Essa dupla pertença enriquece tudo: a análise política, a curadoria cultural, a poesia, a memória.
Marina Duarte: Em breve, o Palavra Livre terá um canal no YouTube. O que representa essa expansão?
Salvador Neto: Representa presença. A palavra escrita tem força, mas a palavra dita tem corpo. O canal será um espaço de reflexão, não de espetáculo. Vamos trabalhar entrevistas, análises, poesia falada, bastidores culturais, debates sobre democracia, território e memória. Não queremos viralizar; queremos permanecer.
Marina Duarte: O audiovisual pode aproximar ainda mais o público?
Salvador Neto: Pode aproximar e pode humanizar. As pessoas verão o rosto, ouvirão a respiração, perceberão o ritmo. Mas a ética editorial permanece a mesma: profundidade, rigor, independência. O audiovisual não é um desvio; é uma extensão natural.
Marina Duarte: Num mundo saturado de informação, como o Palavra Livre se posiciona?
Salvador Neto: Com silêncio. O silêncio é uma ferramenta editorial. Publicamos quando temos algo a dizer, não quando o algoritmo exige. A pressa é inimiga da lucidez. O Palavra Livre existe para desacelerar o olhar, para devolver densidade ao pensamento. Num mundo que grita, escolhemos falar baixo — mas com precisão.
Marina Duarte: Há algum episódio que simbolize o que o Palavra Livre representa?
Salvador Neto: Talvez os momentos em que fomos ponte. Quando um texto nosso ajudou alguém a compreender um contexto político complexo. Quando uma análise cultural abriu portas para novas leituras. Quando uma poesia tocou alguém que estava em silêncio. Esses instantes mostram que a palavra tem impacto real — e é por isso que continuamos.
Marina Duarte: Quem esteve contigo nessa caminhada?
Salvador Neto: Muita gente. O Palavra Livre nunca foi um projeto solitário. Houve leitores que ficaram desde o primeiro dia, colaboradores que ofereceram tempo e talento, parceiros que acreditaram quando não havia nada além de vontade. Houve quem segurasse a estrutura quando ela parecia desabar. Houve quem emprestasse ombro, quem emprestasse voz, quem emprestasse fé. O Palavra Livre é feito de gente — e essa gente é a nossa verdadeira força.
Marina Duarte: O que significa completar 18 anos?
Salvador Neto: Significa maturidade. Significa responsabilidade. Significa assumir que o Palavra Livre já não é um experimento — é uma instituição editorial independente. E isso exige compromisso, ética e visão de futuro.
Marina Duarte: E o futuro? O que podemos esperar dos próximos meses?
Salvador Neto: Podemos esperar mais presença, mais escuta, mais coragem. O canal no YouTube está a caminho, a arrecadação de fundos será aberta com transparência, e talvez — apenas talvez — haja uma celebração simbólica que marque esta maioridade com a dignidade que ela merece. Não será espetáculo, será gesto. Porque o Palavra Livre nunca comemorou com ruído, mas com permanência.
Marina Duarte: Para terminar: se pudesse resumir o Palavra Livre em uma frase, qual seria?
Salvador Neto: Um espaço onde a palavra permanece livre — e, por isso mesmo, necessária.






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