Reconhecimento global reforça a urgência de produzir ciência sobre envelhecimento e demências no Brasil
Por Palavra Livre – Tina Tinoco
Dois cientistas brasileiros foram recentemente premiados por contribuições decisivas para a compreensão e o diagnóstico precoce da doença de Alzheimer — condição que afeta cerca de 40 milhões de pessoas no mundo, sendo aproximadamente 2 milhões no Brasil, número possivelmente subestimado devido às desigualdades de acesso ao diagnóstico. As distinções, concedidas por organizações internacionais de referência, colocam o país no centro de debates científicos sobre envelhecimento, biomarcadores e prevenção de demências.
🌍 Um cenário global que exige respostas locais
O Alzheimer é hoje um dos maiores desafios da saúde pública mundial. A Organização Mundial da Saúde estima que os casos de demência podem triplicar até 2050, impulsionados pelo envelhecimento populacional. No Brasil, onde a população idosa cresce em ritmo acelerado, a produção de conhecimento local é estratégica: diferenças genéticas, ambientais e socioeconômicas podem alterar a manifestação da doença e a eficácia de tratamentos.
É nesse contexto que os trabalhos de Mychael Lourenço (UFRJ) e Wagner Brum (UFRGS) ganham relevância internacional.
🧪 Mychael Lourenço: resiliência cerebral e novas fronteiras para prevenção
Premiado com o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research, Lourenço lidera o Lourenço Lab, grupo dedicado a investigar vulnerabilidades e mecanismos de proteção do cérebro. Seu foco inclui:
- estudo da beta-amiloide e da proteína tau, que formam as placas características da doença;
- análise da resiliência cognitiva, buscando entender por que algumas pessoas acumulam placas sem desenvolver sintomas;
- testes de substâncias capazes de estimular o proteassoma, sistema celular que funciona como uma “coleta de lixo” e que falha no Alzheimer.
A pesquisa também avança na identificação de biomarcadores sanguíneos específicos da população brasileira, etapa crucial para diagnósticos mais precoces e acessíveis.
🩸 Wagner Brum: o exame de sangue que pode transformar o diagnóstico
O médico e pesquisador Wagner Brum recebeu o prêmio Next “One to Watch”, da Alzheimer’s Association, por desenvolver protocolos clínicos para um exame de sangue capaz de detectar a presença da proteína p‑tau217, um dos biomarcadores mais precisos para o Alzheimer.
O avanço é significativo porque:
- exames atuais como PET-CT e líquor são caros e pouco acessíveis;
- o novo teste pode aumentar a confiança diagnóstica e permitir intervenções mais cedo;
- protocolos criados por Brum já são utilizados em laboratórios da Europa e dos EUA.
No Brasil, a adoção ainda é limitada, mas estudos estão em curso para viabilizar sua incorporação ao SUS, o que representaria uma revolução no cuidado à população idosa.
🔬 Por que esses prêmios importam para o Brasil
Além do reconhecimento individual, as premiações reforçam:
- a qualidade da ciência brasileira, mesmo diante de restrições orçamentárias;
- a importância de financiamento contínuo por instituições como Faperj, Serrapilheira e Idor;
- a necessidade de políticas públicas de envelhecimento baseadas em evidências;
- a urgência de ampliar o acesso a diagnósticos precoces, que podem mudar o curso da doença.
Os trabalhos de Lourenço e Brum mostram que o país tem capacidade de liderar pesquisas de impacto global — e que investir em ciência é investir no futuro de uma população que envelhece rapidamente.






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