Países do Atlântico Sul defendem região livre de guerra e armas nucleares em declaração histórica no Rio

Países do Atlântico Sul defendem região livre de guerra e armas nucleares em declaração histórica no Rio

Reunião ministerial da Zopacas reforça compromisso com paz, segurança marítima, proteção ambiental e combate ao racismo, em meio a tensões globais e disputas geopolíticas.

Uma declaração que reposiciona o Atlântico Sul no tabuleiro global

Em um momento em que conflitos se intensificam no Oriente Médio e rivalidades entre grandes potências moldam a geopolítica mundial, os países do Atlântico Sul divulgaram, no Rio de Janeiro, uma declaração conjunta pela preservação da região como zona livre de guerra, armas nucleares e disputas extrarregionais.

O documento encerra a IX Reunião Ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), presidida pelo Brasil, e reafirma o papel estratégico da região como espaço de cooperação, estabilidade e desenvolvimento sustentável.

A Zopacas, criada em 1986 pela ONU, reúne 24 países da África e da América do Sul e volta a ganhar protagonismo diante da crescente militarização de oceanos e da disputa por rotas marítimas e recursos naturais.

Paz, soberania e desmilitarização: o eixo central da declaração

O texto final afirma que o Atlântico Sul deve permanecer livre de:

  • conflitos armados,
  • rivalidades entre grandes potências,
  • armas nucleares,
  • armas de destruição em massa,
  • disputas geopolíticas externas à região.

A mensagem é clara: os países rejeitam qualquer tentativa de transformar o Atlântico Sul em palco de tensões militares ou de projeção de poder de nações de fora da região.

Malvinas: pedido de retomada das negociações

A declaração também pede a retomada das negociações entre Argentina e Reino Unido sobre as Ilhas Malvinas, buscando uma solução “pacífica, justa e duradoura”.

O tema reacende um dos conflitos territoriais mais antigos do hemisfério sul e reforça o posicionamento regional contra ocupações coloniais.

Racismo, escravidão e reparação histórica: um debate necessário

O documento dedica um trecho ao peso histórico da rota transatlântica do tráfico de pessoas escravizadas, defendendo o fortalecimento de políticas de combate ao racismo e promoção da igualdade racial.

A referência à resolução 80/250 da ONU, que reconhece o tráfico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade, gerou divergências: a Argentina incluiu um adendo, afirmando que se dissocia de “certas iniciativas e documentos”, apesar de reafirmar compromisso com o combate ao racismo.

Meio ambiente e clima: oceano, florestas e biodiversidade no centro da agenda

A declaração da Zopacas dedica amplo espaço à proteção ambiental, destacando:

  • a realização da COP30 em Belém,
  • o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF),
  • o avanço do Pacote Azul para soluções climáticas baseadas nos oceanos,
  • a entrada em vigor do Tratado do Alto Mar, que regula a biodiversidade em áreas internacionais.

Além disso, o Brasil lançou a Convenção para a Proteção do Meio Ambiente Marinho no Atlântico Sul, assinada inicialmente por Cabo Verde, Guiné Equatorial, República do Congo e São Tomé e Príncipe.

O documento estabelece:

  • proibição de despejo de substâncias tóxicas,
  • proteção de ecossistemas raros ou frágeis,
  • planos de emergência ambiental,
  • educação oceânica,
  • controle de pesca predatória.

É um passo decisivo para consolidar o Atlântico Sul como zona de preservação ambiental e cooperação científica.

Estratégias de cooperação: governança, segurança marítima e desenvolvimento sustentável

Um terceiro documento aprovado pela Zopacas define estratégias de cooperação não vinculantes, organizadas em três eixos:

  1. Governança oceânica
  2. Defesa e segurança marítimas
  3. Meio ambiente e desenvolvimento sustentável

Os países se comprometem a compartilhar resultados, desafios e lições aprendidas, além de buscar financiamento internacional para implementar ações conjuntas.

Por que isso importa para o Brasil e para o mundo

A reunião ocorre em um momento em que:

  • o Atlântico Sul ganha relevância como rota comercial estratégica,
  • cresce o interesse internacional por recursos energéticos e minerais submarinos,
  • conflitos globais pressionam regiões antes consideradas estáveis,
  • a agenda climática exige cooperação transcontinental.

Ao liderar a Zopacas, o Brasil reforça sua posição como ator diplomático central no hemisfério sul, articulando paz, soberania, clima e desenvolvimento.

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