Vídeos divulgados por autoridades israelenses, investigações internacionais e relatos de abusos revelam um Estado tão habituado à impunidade que passou a registrar e exibir sua própria violência — e isso agora se volta contra ele.
Há momentos na história em que a violência deixa de ser apenas prática de Estado e se converte em linguagem oficial. Israel atravessa esse momento. O que antes era denunciado por organizações de direitos humanos, jornalistas e sobreviventes, agora é exibido pelo próprio governo israelense, como se a brutalidade fosse um troféu político. E é justamente essa arrogância — essa certeza de que nada acontecerá — que começa a se transformar em evidência jurídica contra o país.
O episódio mais recente é emblemático. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, publicou um vídeo em que agentes israelenses humilham e agridem ativistas da flotilha Sumud, que tentavam romper o cerco a Gaza. Os ativistas aparecem ajoelhados, com a testa no chão, mãos amarradas, enquanto Ben-Gvir os insulta. Uma mulher que tenta falar é agarrada pelo pescoço e jogada ao chão com violência. A cena é brutal, mas não surpreende quem acompanha a trajetória de abusos cometidos por Israel — contra palestinos, estrangeiros, jornalistas, trabalhadores humanitários.
O que surpreende é a naturalidade com que o ministro divulga o vídeo. Não há constrangimento. Não há tentativa de esconder. Há orgulho. Há a convicção de que nada acontecerá, de que a violência é não apenas permitida, mas celebrada.
Essa convicção não nasce do nada. Ela é alimentada por décadas de impunidade. Em 2024, a organização israelense B’Tselem publicou o relatório “Welcome to Hell”, documentando abusos sistemáticos contra palestinos detidos sem acusação formal: agressões, ataques de cães, privação de sono, humilhações, violência sexual. No mesmo ano, um vídeo vazado mostrou oficiais israelenses estuprando em grupo um prisioneiro palestino no centro de detenção de Sde Teiman. Nenhum dos envolvidos foi punido. Pelo contrário: quando as acusações foram retiradas, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu chamou os soldados de “heróis”.
A lista de casos é longa e atravessa décadas. Em 2003, a ativista americana Rachel Corrie foi esmagada por um bulldozer israelense em Gaza. Em 2010, nove ativistas da flotilha Mavi Marmara foram mortos a tiros à queima-roupa em águas internacionais. Em 2022, a jornalista palestino-americana Shireen Abu Akleh foi assassinada por um sniper israelense, apesar de estar claramente identificada como imprensa. Em 2024, drones israelenses atacaram três veículos da ONG World Central Kitchen, matando sete trabalhadores humanitários, mesmo após o comboio ter coordenado sua rota com o exército. Nada disso resultou em responsabilização. Nada.
Essa ausência de consequências criou um ambiente em que soldados e autoridades se sentem confortáveis para registrar seus próprios crimes. Durante o auge da ofensiva em Gaza, militares israelenses publicaram vídeos atirando em civis desarmados, explodindo casas palestinas, saqueando lojas, vestindo lingerie de mulheres palestinas, brincando com brinquedos de crianças cujas casas haviam acabado de destruir. Um relatório do Le Monde descreveu esse comportamento como fruto de uma “sensação de impunidade”.
A impunidade também se manifesta no discurso. Netanyahu prometeu “transformar Gaza em uma ilha de ruínas”. Outros políticos evocaram a destruição dos “amalequitas”, referência bíblica usada para justificar o extermínio de mulheres e crianças. Generais defenderam abertamente a criação de uma crise humanitária como estratégia militar. Em canais de TV israelenses, analistas discutiram se era “aceitável atirar em civis”, e a resposta foi um “claro que sim”.
Esse ambiente — político, militar, midiático — não é acidental. Ele forma o que o acadêmico israelense Menachem Klein chamou de “sociedade genocida”: um sistema em que a violência extrema é normalizada, incentivada e celebrada.
Mas algo mudou. A arrogância que sustentou esse sistema começou a produzir rachaduras. O vídeo de Ben-Gvir provocou reações imediatas. Países europeus convocaram embaixadores israelenses. Figuras políticas dentro de Israel, como Benny Gantz e Gideon Saar, criticaram publicamente o ministro. Até Netanyahu, seu aliado, o repreendeu — não por causa da violência, mas pelo dano à imagem internacional.
E é aí que reside o ponto central: a imagem internacional está ruindo. Desde o final de 2023, a opinião pública global se voltou contra Israel. Pesquisas mostram queda drástica de apoio em países ocidentais. Nos Estados Unidos, o apoio irrestrito a Israel se tornou um problema eleitoral. Netanyahu admitiu recentemente que Israel está “perdendo a batalha de relações públicas”.
A ironia é que grande parte das provas usadas no processo de genocídio movido pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça vem de declarações, vídeos e postagens de autoridades e soldados israelenses. A arrogância virou evidência. A impunidade virou arquivo. A violência virou documento.
Um sistema que se acostuma a não esconder seus crimes acaba, inevitavelmente, deixando rastros. E esses rastros agora alimentam investigações internacionais, processos judiciais e um crescente isolamento político.
Israel sempre acreditou que poderia agir sem consequências. Mas, quando a violência se torna tão normal que passa a ser filmada, postada e celebrada, ela deixa de ser apenas prática — e se torna prova.






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