Brasil na corrida global dos minerais críticos: potencial gigante, desafios igualmente grandes

Brasil na corrida global dos minerais críticos: potencial gigante, desafios igualmente grandes

Com as maiores reservas de nióbio do mundo e vastos depósitos de terras raras, o Brasil entra no centro da disputa geopolítica por minerais essenciais à transição energética — mas ainda tropeça na industrialização e na sustentabilidade.

Brasil tenta transformar riqueza mineral em poder estratégico — mas gargalos persistem

A transição energética global — impulsionada por carros elétricos, turbinas eólicas, baterias de longa duração e tecnologias digitais — colocou os minerais críticos, estratégicos e terras raras no centro da geopolítica. O Brasil, dono de algumas das maiores reservas do planeta, surge como protagonista potencial. Mas especialistas alertam: sem domínio tecnológico e sem uma política industrial robusta, o país corre o risco de repetir o velho papel de exportador de matéria-prima barata.

A reportagem da Agência Brasil mostra que o país possui 21 milhões de toneladas de terras raras, a segunda maior reserva mundial, além de 94% das reservas globais de nióbio, 26% de grafita e 12% de níquel — minerais essenciais para baterias, semicondutores, defesa e energias renováveis. Mas o desafio não está apenas no subsolo.

O que são terras raras, minerais críticos e estratégicos — e por que isso importa

Embora frequentemente tratados como sinônimos, os termos têm diferenças importantes:

  • Terras raras: 17 elementos químicos usados em ímãs permanentes, turbinas eólicas, carros elétricos, lasers e sistemas militares.
  • Minerais estratégicos: essenciais para o desenvolvimento econômico e tecnológico de um país.
  • Minerais críticos: aqueles cujo abastecimento está em risco por fatores geopolíticos, concentração de produção ou dificuldade de substituição.

Segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS), a China domina 70% da produção global de terras raras e mais de 85% do refino, o que acende alertas em EUA e União Europeia.

Brasil: potência mineral, dependência industrial

Apesar da abundância, o país ainda exporta majoritariamente minério bruto. O geógrafo Luiz Jardim Wanderley, da UFF, lembra que o padrão histórico se repete: “O Brasil segue como país primário-exportador. Extrai muito, refina pouco e importa produtos de alto valor agregado”, afirma .

Dados do IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração) reforçam o diagnóstico:

  • 98% do nióbio brasileiro é exportado sem beneficiamento avançado.
  • O país importa mais de 80% dos semicondutores usados na indústria nacional.
  • O refino de terras raras ainda é incipiente, com apenas projetos-piloto em operação.

Impactos socioambientais: o custo invisível da corrida mineral

A mineração de terras raras e de minerais críticos é conhecida por gerar resíduos tóxicos, radioatividade e contaminação hídrica. O Brasil já convive com tragédias recentes — Mariana (2015) e Brumadinho (2019) — que expuseram a fragilidade da fiscalização.

Wanderley é categórico: “Não existe mineração sustentável. O que existe é mineração menos degradante”. Ele aponta efeitos recorrentes:

  • pressão sobre recursos hídricos;
  • aumento da desigualdade e da violência em municípios mineradores;
  • destruição de ecossistemas sensíveis.

Relatórios do Observatório da Mineração mostram que, em regiões de extração intensiva, a renda per capita cresce, mas a desigualdade aumenta em até 30%.

Geopolítica: Brasil vira alvo de disputas internacionais

Com a transição energética acelerada, países desenvolvidos buscam diversificar fornecedores para reduzir a dependência da China. Em 2024, EUA e UE incluíram o Brasil em listas prioritárias de cooperação para minerais críticos.

Nos últimos dois anos:

  • Brasil e Alemanha firmaram acordo para pesquisa e desenvolvimento em terras raras.
  • O governo brasileiro anunciou que não quer apenas exportar minério, mas desenvolver cadeias completas, do refino à fabricação de componentes.
  • Empresas canadenses e australianas ampliaram investimentos em projetos de lítio e grafita no país.

O que falta para o Brasil assumir liderança global

Especialistas apontam três gargalos centrais:

1. Industrialização e tecnologia

O país precisa dominar etapas de refino, separação química e fabricação de ímãs permanentes — áreas onde a China tem décadas de vantagem.

2. Marco regulatório moderno

A legislação mineral brasileira ainda é lenta e pouco adaptada às novas demandas da economia verde.

3. Sustentabilidade e fiscalização

Sem regras rígidas e transparência, o país corre o risco de ampliar conflitos socioambientais.

Oportunidade histórica — e risco de repetir o passado

O Brasil está no radar global. Tem reservas gigantes, posição estratégica e demanda crescente por minerais essenciais. Mas, sem planejamento de longo prazo, pode continuar exportando riqueza e importando tecnologia.

A transição energética é uma chance única de romper esse ciclo. A pergunta é se o país conseguirá transformar potencial geológico em soberania tecnológica e desenvolvimento sustentável.

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