O jornalista e líder de viagens português revela, em entrevista à CNN Portugal, como o Irão desconstrói estereótipos e expõe a força, a cultura e a liberdade interior de um povo que resiste — e acolhe — mesmo sob repressão.
Entre o medo e a descoberta

Miguel Judas chegou ao Irão pela primeira vez em 2017, carregando receios e imagens herdadas de um país fechado e hostil. “Fui cheio de preconceitos”, admite. “Achava que ia encontrar um lugar perigoso, onde não se podia falar nem olhar para as pessoas.” O que encontrou foi o oposto: um povo curioso, culto e generoso, que se aproxima dos estrangeiros com naturalidade e empatia. “Temos a mania de que somos hospitaleiros, mas somos umas bestas comparados com eles”, diz, rindo.
A entrevista, conduzida por Tiago Palma para o podcast Fúria Épica da CNN Portugal, revela o olhar de um repórter que transformou o destino em relação. O Irão, para Judas, deixou de ser exótico e tornou‑se quase casa — um lugar de amigos, de conversas e de resistência.
O país que desmonta preconceitos

“É um país muito bom para desconstruir preconceitos”, afirma. A hospitalidade genuína, a cultura viva e o papel ativo das mulheres desafiam as imagens simplistas que dominam o noticiário ocidental. “Há mulheres que conduzem táxis, estudam, trabalham, fumam shisha enquanto os homens tomam conta dos filhos. E 70% da população universitária são mulheres.”

Entre bazares, pontes e desertos, Judas encontrou uma sociedade plural, marcada por camadas históricas e religiosas que convivem — do Islão ao zoroastrismo, das sinagogas às igrejas cristãs. “As histórias estão sempre lá”, diz. “Basta ficar tempo suficiente para ouvir.”
O Irão das pessoas, não do regime

Sem ignorar a repressão e as tensões políticas, Judas insiste em olhar para além do poder. “É injusto quando se fala do Irão apenas pela dureza do regime”, afirma. “Há medo, mas há também humor, liberdade e vontade de viver.” Nas suas viagens, testemunhou manifestações, casamentos, cafés cheios e piqueniques retomados após explosões — sinais de uma resiliência que define o povo iraniano.
Memória portuguesa e pontes de humanidade

Nas ilhas de Qeshm e Ormuz, Judas reencontrou vestígios da presença portuguesa — castelos, tradições e histórias que sobrevivem sem rancor. “Um guia brincou comigo: ‘Isto era vosso e agora têm de pagar para entrar’”, recorda. Mas o que mais o marcou foram as pontes de Isfahan, onde desconhecidos se juntam para cantar. “É ali que se entende o Irão: um país que se recusa a perder a voz.”
Resistência e esperança

Mesmo sob sanções e ameaças de guerra, Judas vê no quotidiano iraniano uma força que desafia o medo. “A palavra é resiliência”, resume. “As pessoas voltam à rua, aos cafés, aos parques. É a forma que têm de não entregar a vida.”

O Irão que ele descreve é o das pessoas, não das manchetes. Um país que ensina que a curiosidade é mais poderosa do que o preconceito, e que a humanidade sobrevive mesmo quando tudo parece ruir.
Nota: todas as fotografias que acompanham este artigo são da autoria de Miguel Judas e foram tiradas no Irão. Versão produzida a partir de matéria na CNN Portugal.






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