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Noémia de Sousa: cem anos da poeta que fez da palavra uma nação antes da independência

Noémia de Sousa: cem anos da poeta que fez da palavra uma nação antes da independência

O centenário da autora moçambicana será celebrado entre 1 e 20 de setembro de 2026, com homenagens no Brasil, Moçambique e Portugal, incluindo o lançamento de uma biografia literária e encontros que reúnem jornalistas, artistas e leitores influenciados pela sua obra.

A voz que atravessou fronteiras antes de o país existir

Em 20 de setembro de 1926 nascia, em Catembe, Moçambique, Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares — a mulher que o mundo viria a conhecer como Noémia de Sousa, “mãe dos poetas moçambicanos”. Cem anos depois, o seu nome volta a acender debates, memórias e celebrações em três continentes.

A poeta que escreveu entre 1948 e 1951, num período breve e clandestino, transformou a língua portuguesa num instrumento de denúncia e afirmação africana. Foi na Mafalala, bairro histórico de Maputo, que Noémia escreveu versos que se tornariam centrais na literatura moçambicana, como o emblemático “Deixa passar o meu povo”, poema que ecoa até hoje como manifesto de dignidade.

Exílio, jornalismo e a palavra como resistência

Perseguida pela PIDE pelo seu ativismo e ligação aos movimentos de libertação, Noémia refugiou‑se em Portugal em 1951 e, mais tarde, fugiu “a salto” para Paris, em 1964. Na capital francesa, integrou círculos intelectuais africanos ligados ao Centro de Estudos Africanos, reunidos na Casa da Tia Andreza, espaço de resistência cultural que também acolhia Alda Espírito Santo.

De regresso a Lisboa, dedicou-se ao jornalismo: trabalhou na ANI, ingressou na Reuters em 1972 e, mais tarde, nas agências ANOP e Lusa, onde permaneceu até depois da reforma. A sua vida profissional, marcada por rigor e coragem, ampliou a sua influência para além da poesia.

O livro que reuniu a nação dispersa

Em 2001, a Associação de Escritores Moçambicanos publicou “Sangue Negro”, reunindo os poemas escritos entre 1948 e 1951. A obra foi reeditada por Nelson Saúte em Moçambique e lançada no Brasil pela Kapulana. Em 2024, ganhou edição francesa — “Sang Noir” — pela editora Project’îles, ampliando o alcance internacional da autora.

As celebrações do centenário: quando, onde e como

As homenagens ao centenário de Noémia de Sousa acontecem ao longo de setembro de 2026, com três momentos centrais:

1 de setembro — Brasil

A editora Kapulana apresenta, em São Paulo, a obra “Se me quiseres conhecer – Noémia de Sousa: Biografia literária”, escrita por Nelson Saúte. O evento inclui debate com escritores, críticos e leitores brasileiros que reconhecem em Noémia uma das vozes fundadoras da literatura africana em língua portuguesa.

Setembro — Moçambique

A edição moçambicana da biografia será lançada em Maputo, acompanhada de uma programação cultural que envolve a Associação de Escritores Moçambicanos, investigadores e jovens poetas que reivindicam a herança de Noémia. Leituras públicas, mesas redondas e exposições documentais revisitam manuscritos, fotografias e cartas da autora. É o regresso simbólico da poeta à cidade onde a sua palavra nasceu.

20 de setembro — Lisboa, Portugal

No dia exato do centenário, a Agência Lusa promove uma homenagem que reúne antigos colegas de redação, representantes da comunidade moçambicana e artistas cuja criação continua a ser influenciada pela autora. O encontro discute o papel de Noémia no jornalismo português, a sua presença na diáspora e o impacto da sua escrita na construção de uma consciência africana moderna.

Um legado que continua a passar

Cem anos depois, Noémia de Sousa permanece como ponte entre gerações. A sua obra, breve mas decisiva, recorda que a palavra pode ser território, arma e abrigo. Ao celebrar o centenário, Brasil, Moçambique e Portugal reconhecem que Noémia não escreveu apenas poemas: escreveu o futuro de uma nação que ainda lutava para nascer.

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