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Gloria Steinem: a mulher que mudou a linguagem da liberdade

Gloria Steinem: a mulher que mudou a linguagem da liberdade

Morta no dia 2 de setembro passado aos 92 anos, a jornalista e activista norte-americana deixa um legado que transcende o feminismo. Ao dar voz a temas silenciados, desafiar estruturas de poder e transformar experiências individuais em causas colectivas, Gloria Steinem ajudou a reescrever o papel das mulheres na sociedade contemporânea.

Durante grande parte do século XX, as mulheres lutaram para conquistar direitos que hoje parecem básicos: igualdade salarial, autonomia sobre o próprio corpo, presença na política, acesso a profissões tradicionalmente masculinas e respeito nos espaços de poder. Poucas pessoas contribuíram tanto para essa transformação quanto Gloria Steinem.

A activista norte-americana, falecida aos 92 anos, não foi apenas uma defensora dos direitos das mulheres. Foi uma estratega cultural capaz de alterar o modo como a sociedade falava sobre género, liberdade e cidadania. Quando muitas dessas questões eram consideradas radicais ou inconvenientes, Steinem levou-as para as páginas das revistas, para as ruas, para os tribunais e para o debate político nacional.

Uma infância marcada pela sobrevivência

Nascida em 1934, em Toledo, Ohio, Steinem cresceu longe dos privilégios que mais tarde lhe seriam atribuídos pelos críticos. A infância foi marcada pela instabilidade financeira, pelas viagens constantes com a família e pela doença mental da mãe, de quem passou a cuidar ainda muito jovem.

Anos depois, diria que essa experiência lhe ensinou uma lição fundamental: muitas das limitações impostas às mulheres não eram individuais, mas resultado de estruturas sociais e culturais profundamente enraizadas.

Uma bolsa de estudos levou-a à Índia no final dos anos 1950. Foi ali que entrou em contacto com movimentos populares e formas de organização comunitária que marcariam o seu futuro activismo. Trabalhando ao lado de mulheres rurais envolvidas em protestos não violentos, descobriu o valor transformador da mobilização colectiva.

A reportagem que abalou a América

A notoriedade nacional chegou em 1963. Num período em que as mulheres raramente recebiam grandes reportagens nas redacções dominadas por homens, Steinem infiltrou-se como uma das famosas “coelhinhas” da Playboy. O resultado foi uma investigação que revelou exploração, baixos salários, humilhações e condições de trabalho degradantes escondidas atrás do glamour vendido pela indústria do entretenimento. O texto tornou-se um marco do jornalismo investigativo americano.

Mas o reconhecimento não veio acompanhado de respeito imediato. Apesar do sucesso da reportagem, continuou a receber pautas consideradas “apropriadas para mulheres”, frequentemente relacionadas com moda ou comportamento. A experiência convenceu-a de que o problema não estava apenas em algumas empresas ou instituições. Estava também na forma como a sociedade definia o papel feminino.

A revista que revolucionou uma geração

Se houve um momento em que Gloria Steinem deixou de ser apenas jornalista para se tornar um fenómeno cultural, esse momento aconteceu em 1972.

Ao lado de outras activistas, lançou a revista Ms., a primeira grande publicação norte-americana criada e dirigida exclusivamente por mulheres. Enquanto as revistas femininas tradicionais abordavam culinária, decoração e aparência, a Ms. falava de salários, política, violência doméstica, maternidade, sexualidade e direitos civis.

O sucesso foi imediato. A primeira edição esgotou na primeira semana e gerou milhares de assinaturas. O projecto foi inicialmente ridicularizado por críticos que previam um fracasso rápido. Em vez disso, tornou-se uma das publicações mais influentes da história recente dos Estados Unidos. Mais do que informar, a revista ajudou a construir uma nova consciência colectiva.

A batalha pelo direito de decidir

Entre todas as causas que abraçou, nenhuma definiu tanto a sua trajectória quanto a defesa da liberdade reprodutiva. Steinem relatou ter efectuado um aborto quando era jovem, numa época em que o procedimento era ilegal em grande parte do mundo. Essa experiência tornou-se decisiva para o seu activismo futuro.

A partir do final dos anos 1960, passou a defender publicamente o direito das mulheres de decidir sobre o próprio corpo e tornou-se uma das principais vozes da causa nos Estados Unidos. Foi também responsável por popularizar a expressão “liberdade reprodutiva”, linguagem que ajudou a retirar o debate do campo moral e colocá-lo no terreno dos direitos individuais e da cidadania.

A sua influência foi tão profunda que muitos dos termos utilizados actualmente em discussões sobre aborto e direitos das mulheres nasceram ou ganharam força no universo político que ajudou a construir.

Mais do que feminismo

Embora tenha sido identificada sobretudo com a causa das mulheres, Steinem actuou em diversas frentes. Defendeu igualdade salarial, combateu a mutilação genital feminina, apoiou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, criticou a pena de morte e lutou por uma presença mais ampla das mulheres na vida pública e política.

A sua participação foi fundamental na criação do National Women’s Political Caucus, organização que procurava ampliar a representação feminina em todos os níveis da política norte-americana. Essa talvez tenha sido uma das suas vitórias mais duradouras.

Antes da sua geração, a presença feminina nos espaços de decisão era exceção. Hoje continua insuficiente, mas tornou-se uma realidade incontornável em grande parte das democracias ocidentais.

Os elogios e as contradições

Como qualquer figura histórica relevante, Gloria Steinem também foi alvo de críticas. Foi atacada por conservadores, por grupos religiosos e mesmo por sectores do feminismo. Alguns consideravam-na excessivamente moderada. Outros acusavam-na de protagonismo excessivo. Houve ainda quem afirmasse que a sua popularidade derivava da aparência física e não das ideias.

Ela respondeu quase sempre da mesma forma: continuando o trabalho. Ao longo da carreira, reviu posições, reconheceu erros e participou de debates complexos sobre sexualidade, política e identidade, mantendo-se uma figura influente até aos últimos anos de vida.

A ascensão repentina de Steinem para se tornar o rosto do feminismo da segunda onda chamou a ira de algumas ativistas

O tamanho do legado

Quando Barack Obama lhe entregou a Medalha Presidencial da Liberdade, em 2013, afirmou que o seu trabalho ajudou a garantir às mulheres mais respeito e mais oportunidades. Mas talvez o maior legado de Gloria Steinem seja menos visível.

Ela ajudou a mudar a linguagem da sociedade. Temas antes tratados como problemas privados passaram a ser reconhecidos como questões públicas. Experiências individuais passaram a ser compreendidas como fenómenos sociais. Mulheres que durante décadas permaneceram invisíveis encontraram voz, representação e espaço para reivindicar direitos.

A morte de Gloria Steinem encerra um capítulo decisivo da história contemporânea. Porém, as discussões que ajudou a iniciar permanecem vivas, atravessando eleições, parlamentos, universidades e movimentos sociais em todo o mundo.

Poucas activistas conseguem afirmar que mudaram um país. Menos ainda podem dizer que ajudaram a mudar uma época. Gloria Steinem foi uma delas.

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