Fórum Internacional no Uzbequistão reuniu jornalistas, académicos e especialistas de 50 países para refletir sobre o papel da comunicação social no combate à islamofobia e na construção de pontes entre culturas.
ater a islamofobia através da informação e do conhecimento.
Tashkent no centro de um debate global
A capital do Uzbequistão transformou-se recentemente num importante palco de reflexão internacional sobre a forma como o Islão é retratado pelos meios de comunicação social e compreendido pelas sociedades contemporâneas. O Fórum Internacional de Media “Civilização Islâmica: Uma Nova Perspectiva – Novas Descobertas” reuniu cerca de 300 profissionais da comunicação, investigadores, editores, cineastas e especialistas em tecnologia oriundos de aproximadamente 50 países.
Mais do que um encontro académico ou institucional, o fórum assumiu-se como um espaço de debate sobre a construção de narrativas, os estereótipos associados ao mundo islâmico e o papel do jornalismo na promoção de uma compreensão mais equilibrada entre culturas.
A resposta à islamofobia passa pelo conhecimento
Uma das mensagens centrais do encontro foi a defesa do conhecimento como principal ferramenta para combater preconceitos. Firdavs Abdukhalikov, diretor do Centro de Civilização Islâmica do Uzbequistão, argumentou que os equívocos sobre o Islão não devem ser enfrentados através do confronto, mas sim mediante explicação, investigação e educação.
Segundo Abdukhalikov, “a resposta mais eficaz à islamofobia é o esclarecimento” e “a arma mais eficaz contra a ignorância é o conhecimento”. A sua intervenção destacou ainda a importância de divulgar com maior amplitude o legado científico, cultural e intelectual das sociedades islâmicas, frequentemente subvalorizado nos discursos históricos dominantes.
A autocrítica também faz parte da discussão
O debate revelou uma perspetiva menos habitual, centrada na responsabilidade interna das comunidades muçulmanas na construção da sua própria imagem pública.
Hasanbey Kondu, responsável pela editora turca Mega Basım, defendeu que as visões distorcidas sobre o Islão não podem ser atribuídas exclusivamente ao Ocidente. Para o editor, os próprios muçulmanos devem refletir sobre a forma como apresentam e explicam a sua religião ao mundo.
A posição trouxe complexidade ao debate e procurou afastar leituras simplistas, sugerindo que o combate aos preconceitos exige igualmente processos de autocrítica e renovação dentro das próprias comunidades.
Uma Ásia Central redescoberta pela Europa
Outro dos temas relevantes foi a crescente atenção da Europa à Ásia Central. Sherzod Asadov, secretário de imprensa da presidência uzbeque, convidou jornalistas estrangeiros a observarem o país de forma direta e independente, sem narrativas previamente definidas. A mensagem procurou reforçar a importância do contacto com a realidade local e da construção de conclusões baseadas na experiência jornalística.
O diretor executivo da Euronews, Claus Strunz, reconheceu que durante muitos anos a Ásia Central foi praticamente ignorada pela opinião pública europeia, surgindo apenas associada a catástrofes ou a imagens romantizadas da antiga Rota da Seda. Nos últimos anos, porém, o cenário mudou significativamente.
A parceria estratégica entre Europa e Ásia Central
O fortalecimento das relações institucionais foi apontado como um dos fatores que explicam esta nova atenção. Em abril de 2025, realizou-se em Samarcanda a primeira cimeira entre a União Europeia e a Ásia Central, encontro que elevou as relações entre as duas regiões ao estatuto de parceria estratégica.
Para Claus Strunz, esta aproximação reflete a crescente relevância económica, política e cultural da Ásia Central para a Europa. No entanto, frisou que qualquer aumento do interesse europeu deve continuar assente num jornalismo independente, baseado na observação direta dos factos e na apresentação de informação suficiente para que os cidadãos formem as suas próprias opiniões.
A inteligência artificial e o futuro do jornalismo
O impacto da inteligência artificial nos media também ocupou espaço nas discussões. Sherzod Asadov considerou que as ferramentas de IA podem ampliar as capacidades dos jornalistas, mas não substituí-los. Para o responsável, valores como a verdade, a imparcialidade, a consciência ética e o interesse público devem continuar a orientar o trabalho jornalístico, independentemente das transformações tecnológicas.
A reflexão surge num momento em que redações de todo o mundo procuram adaptar-se às novas tecnologias, equilibrando inovação e credibilidade num ambiente informativo cada vez mais competitivo e veloz.
A Rota da Seda do conhecimento
O encontro terminou por reforçar uma ideia particularmente interessante: a de que as trocas entre Europa e Ásia Central não são uma novidade do século XXI.
O investigador italiano Mario Taddei apresentou o conceito de “Rota da Seda do Conhecimento”, defendendo que numerosos avanços científicos chegaram à Europa através de uma extensa rede de transmissão intelectual que ligava a China, o Médio Oriente e o mundo renascentista europeu.
Também foram recordadas antigas ligações diplomáticas, como a viagem do emissário espanhol Ruy González de Clavijo a Samarcanda, em 1404, testemunho histórico das relações entre as duas regiões.
Ao lado desta recuperação do passado, foram apresentadas novas formas de comunicar património e história: livros, documentários, avatares digitais, plataformas imersivas e outras ferramentas tecnológicas capazes de aproximar o público contemporâneo de figuras e acontecimentos históricos.
Uma questão de narrativa
Num tempo marcado pela polarização, pela desinformação e pela facilidade com que preconceitos circulam nas redes sociais, o fórum de Tashkent deixou uma mensagem clara: o jornalismo, a investigação histórica e a educação continuam a ser instrumentos decisivos na construção do diálogo intercultural.
Mais do que defender uma religião ou uma região do mundo, os participantes propuseram uma reflexão universal sobre a responsabilidade dos meios de comunicação na criação de perceções coletivas. A aposta no conhecimento, na contextualização e na independência editorial surge, assim, como uma resposta concreta aos simplismos que continuam a alimentar incompreensões entre povos e culturas.






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