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Antonieta de Barros: a mulher que ensinou o Brasil a valorizar os seus professores

Antonieta de Barros: a mulher que ensinou o Brasil a valorizar os seus professores

Educadora, jornalista, escritora e pioneira na política, Antonieta de Barros transformou a educação numa causa de vida. Primeira deputada negra do Brasil, abriu caminhos para as mulheres, combateu o racismo e deixou um legado que ultrapassa gerações

Quando se fala no Dia dos Professores, celebrado a 15 de outubro no Brasil, o nome de Antonieta de Barros nem sempre surge de imediato. Contudo, por detrás dessa data está uma mulher cuja história se confunde com algumas das maiores conquistas da educação e da cidadania brasileiras.

Nascida em Florianópolis, a 11 de julho de 1901, apenas treze anos após a abolição da escravatura no Brasil, Antonieta era filha de Catarina de Barros, uma lavadeira negra que criou os filhos em condições económicas difíceis. Num tempo em que as oportunidades eram escassas para mulheres e praticamente inexistentes para mulheres negras, conseguiu alcançar um percurso académico e profissional extraordinário.

Foi a primeira pessoa da sua família a concluir um percurso escolar completo, formando-se na Escola Normal Catarinense, instituição destinada à preparação de professores. A educação, porém, nunca foi para ela um privilégio individual. Tornou-se uma missão social.

Uma escola para quem não tinha escola

Em 1922, com apenas 21 anos, fundou o Curso Particular Antonieta de Barros, destinado à alfabetização de crianças, jovens e adultos com poucos recursos financeiros. A escola funcionou durante décadas e foi dirigida pela própria educadora até à sua morte. Em um Brasil marcado por elevadas taxas de analfabetismo, Antonieta acreditava que a educação era o caminho mais seguro para a emancipação social. Essa convicção ficou expressa numa das suas reflexões mais conhecidas:

“Educar é ensinar os outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes; é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar, sem muletas e sem tropeços.”

Mais de setenta anos depois, as suas palavras continuam surpreendentemente atuais.

A jornalista que escrevia contra o preconceito

Muito antes de entrar para a política, Antonieta já fazia ouvir a sua voz através da imprensa. Na década de 1920 fundou e dirigiu o jornal A Semana e, posteriormente, o periódico Vida Ilhoa, utilizando frequentemente o pseudónimo “Maria da Ilha”. Nas suas crónicas abordava temas como educação, cultura, direitos das mulheres, desigualdades sociais e preconceito racial.

Na sociedade em que poucas mulheres tinham presença pública, Antonieta ocupou espaços tradicionalmente reservados aos homens e utilizou-os para defender a democratização do conhecimento. Em 1937 reuniu parte dos seus textos no livro Farrapos de Ideias, obra que continua a ser estudada por investigadores interessados na história da educação, do feminismo e do pensamento negro no Brasil.

Uma pioneira na política brasileira

O ano de 1934 marcou um momento histórico. Nas primeiras eleições realizadas após a conquista do direito de voto pelas mulheres brasileiras, Antonieta de Barros foi eleita para a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, tornando-se a primeira mulher negra a exercer um mandato parlamentar no Brasil e a primeira mulher a integrar o parlamento catarinense.

O feito ganha ainda maior dimensão quando analisado à luz da época. O país vivia profundas desigualdades raciais, sociais e de género. A presença de uma mulher negra no poder político era praticamente inimaginável. Durante o seu percurso parlamentar, destacou-se pela defesa da educação pública, da valorização dos professores, do acesso ao ensino e da modernização das políticas educativas. Participou igualmente na construção da Constituição catarinense de 1935, contribuindo para capítulos relacionados com educação e funcionalismo público.

Foi também a primeira mulher a presidir uma sessão de uma assembleia legislativa brasileira, em 1937.

A origem do Dia dos Professores

A ligação entre Antonieta de Barros e o Dia dos Professores não é simbólica: é concreta e legislativa. Em 1948, já no exercício de novo mandato parlamentar, apresentou o projeto que originou a Lei Estadual n.º 145, instituindo em Santa Catarina o dia 15 de outubro como Dia do Professor e feriado escolar. A iniciativa antecedeu em quinze anos a oficialização nacional da celebração, que viria a ocorrer apenas em 1963. Por essa razão, a história do Dia dos Professores no Brasil está intimamente ligada ao trabalho e à visão de Antonieta.

Para ela, homenagear os docentes significava reconhecer o papel fundamental daqueles que constroem o futuro através do conhecimento.

Educação, igualdade e cidadania

A importância de Antonieta de Barros vai muito além da política. A sua vida demonstra como a educação pode transformar destinos individuais e realidades coletivas. Numa época marcada pela exclusão, fez da escola um instrumento de inclusão; numa sociedade permeada pelo preconceito racial, utilizou a palavra para afirmar a igualdade; num cenário político predominantemente masculino, mostrou que as mulheres tinham legitimidade para participar das decisões públicas.

Manteve contactos com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e com a sua líder, Bertha Lutz, participando dos movimentos que defendiam a ampliação dos direitos das mulheres no país.

Uma heroína da pátria

O reconhecimento nacional do seu legado culminou em 2023, quando o seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. A homenagem distingue personalidades cuja ação contribuiu de forma excecional para a construção do país.

Mais de sete décadas após a sua morte, Antonieta de Barros continua presente em escolas, instituições de ensino, estudos académicos e movimentos sociais. Mas continua, sobretudo, presente numa ideia que atravessou toda a sua vida: a convicção de que o conhecimento é uma das formas mais poderosas de combater a desigualdade.

Nestes tempos em que se discute o futuro da educação, recordar Antonieta de Barros é recordar que ensinar nunca foi apenas transmitir saberes. É abrir horizontes, criar oportunidades e transformar vidas.

Antonieta de Barros, educadora, jornalista e deputada estadual catarinense, em retrato histórico. Primeira mulher negra eleita para um cargo parlamentar no Brasil, destacou-se pela defesa da educação pública e da inclusão social.

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