Presidente argentino inicia a “Argentina Week” em Paris para tentar atrair investimentos europeus num momento de forte deterioração social e isolamento diplomático.
Por Palavra Livre, com base em reportagem de France 24
A chegada de Javier Milei a Paris, para participar da “Argentina Week”, marca mais uma etapa da estratégia do presidente argentino de extrema-direita para tentar reanimar uma economia fragilizada por três anos de austeridade. Em meio ao aumento da pobreza e ao desgaste político interno, Milei aposta num fórum econômico de três dias para convencer empresas europeias de que a Argentina continua sendo um destino viável para investimentos.
O evento, que já teve uma edição em Nova Iorque, reúne ministros, chefes de governo provinciais e líderes empresariais. Em Paris, Milei discursará na OCDE e terá uma reunião privada com Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu. A França, sétimo maior investidor na Argentina, conta com cerca de 250 subsidiárias no país, empregando mais de 53 mil pessoas — um dado que explica a escolha estratégica da capital francesa.
Crise interna e busca por capital externo
A situação social argentina deteriora-se rapidamente. A pobreza atingiu 32,3% da população no primeiro semestre de 2026, contra 28,2% no período anterior, segundo o Indec. Para o pesquisador Jean‑Jacques Kourliandsky, da Fundação Jean‑Jaurès, Milei tenta “abrir portas que ainda estão abertas na Europa”, já que fechou outras por razões ideológicas.
O presidente argentino desmontou políticas industriais e cortou investimentos públicos em infraestrutura, saúde e educação, afetando setores que tradicionalmente geram emprego. Com a economia estrangulada, afirma Kourliandsky, “não há mais dinheiro na Argentina, ele precisa encontrá-lo em outro lugar”.
Isolamento diplomático e contradições estratégicas
Milei rompeu pontes com parceiros históricos:
- Espanha, após ataques ao primeiro-ministro Pedro Sánchez;
- Reino Unido, ao reacender o conflito das Malvinas;
- Brasil, por divergências ideológicas com Lula.
Com isso, restam-lhe aliados na extrema-direita latino-americana e o apoio dos Estados Unidos, que continuam sendo seu principal respaldo internacional.
Na Europa, França, Itália e Alemanha permanecem acessíveis, ainda que não ideologicamente alinhadas. Paradoxalmente, Milei recusou o convite para a universidade de verão do Medef, associação que reúne justamente os empresários que ele tenta atrair.
Protestos em Paris e gestão da imagem
A visita não passa despercebida. A Assembleia dos Cidadãos Argentinos na França convocou manifestações diante da embaixada argentina, e uma petição para declarar Milei persona non grata já superou 3.500 assinaturas.
A renúncia de Santiago Muzio, diretor da Maison de l’Argentine em Paris, também expôs tensões internas. Considerado alinhado à extrema-direita, Muzio enfrentou forte rejeição da comunidade argentina na França, o que teria motivado sua substituição para evitar desgastes durante a visita presidencial.
Risco de nova crise profunda
Para Kourliandsky, a Argentina vive um momento de grande instabilidade. A ausência de uma oposição organizada, somada ao desgaste das forças políticas tradicionais, cria um ambiente volátil. Milei, que surgiu como figura “mágica” — professor universitário, ensaísta, outsider — vê essa aura desmoronar.
O pesquisador alerta que o país pode enfrentar uma crise tão violenta quanto a de 2000–2002, caso a situação econômica continue a se agravar.






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