Durante anos, Ron McAndrew deu o sinal que enviava homens para a morte. Supervisionou execuções, acreditou na pena de morte e ajudou a alimentar uma das mais implacáveis engrenagens do sistema penal norte-americano. Hoje, aos 88 anos, o antigo diretor da prisão da Florida onde os condenados eram executados tornou-se um dos mais contundentes opositores da pena capital e diz continuar assombrado pelos homens que viu morrer.
Todas as noites eles regressavam. Ron McAndrew sabia que viriam. Acomodava-se nos lençóis, deixava espaço aos pés da cama e aguardava. Décadas depois de ter abandonado o corredor da morte da Florida State Prison, os homens que supervisionou na sua derradeira caminhada continuavam presentes. Não falavam. Não gritavam. Não exigiam vingança.
Limitavam-se a sentar-se diante dele e a olhar. Os olhos, porém, faziam uma pergunta que nunca desapareceu.
“Como pôde fazer uma coisa destas? Sempre afirmou ser uma boa pessoa. E agora está a matar pessoas.”
A interrogação atravessou quase trinta anos de vida. Resistiu ao tempo, à reforma, às mudanças políticas e ao desgaste da idade. Hoje, aos 88 anos, McAndrew continua a recordar cada rosto, cada execução e cada momento em que viu a vida abandonar o corpo de um condenado.
A história do antigo diretor da Florida State Prison, retratada numa impressionante reportagem da CNN, assinada pelo jornalista Rob Picheta e ilustrada pelas fotografias de Tina Russell, é uma poderosa viagem aos limites da consciência humana. É também a história de uma transformação moral profunda: a de um homem que acreditava estar a servir a justiça e acabou convencido de que participara num sistema que considera desumano.
Durante grande parte da sua vida não existiam dúvidas. Criado numa América rural e profundamente religiosa, cresceu sob a influência do avô, um pastor metodista que lhe repetia uma máxima que parecia simples e definitiva: “olho por olho, dente por dente”.
Essa convicção acompanhou-o durante décadas. Acompanhou-o nas Forças Armadas. Acompanhou-o na carreira prisional. E acompanhou-o quando lhe perguntaram se teria problemas em dirigir uma prisão onde o Estado executava condenados à morte. A resposta foi imediata. “Não, senhor.”
Não havia hesitação. Não havia conflito moral. Não havia qualquer sinal de que um dia se tornaria um dos críticos mais ferozes da pena capital. Hoje, porém, quando olha para trás, custa-lhe compreender o homem que foi.
“Eu acreditava verdadeiramente na pena de morte. Hoje não consigo acreditar que acreditava. Simplesmente não consigo.”
Na Florida State Prison, as execuções eram rodeadas por um ritual minuciosamente preparado. Na véspera, McAndrew reunia a equipa responsável pela operação. Comprava café, levava donuts e procurava perceber como cada elemento estava a lidar psicologicamente com aquilo que iria acontecer nas horas seguintes.
Detestava piadas. Detestava o entusiasmo. Detestava sobretudo a banalização da morte. Foi por isso que proibiu até a utilização da expressão “Old Sparky”, a alcunha popular da cadeira elétrica. “Nada do que estamos a fazer é uma piada”, recordava dizer aos agentes.
Na manhã da execução, dirigia-se sozinho à cela do condenado. Mandava sair os guardas. Sentava-se ao lado do homem que tinha apenas alguns minutos de vida pela frente. Nesses instantes desapareciam os tribunais, os governadores, os recursos e os procedimentos burocráticos.
Restavam apenas dois homens. Um deles prestes a morrer. O outro consciente de que isso estava prestes a acontecer. “Somos só eu e tu”, dizia. “Haverá alguma coisa que queiras dizer?”
McAndrew prometeu a todos os condenados que jamais revelaria aquilo que lhe confidenciassem naquelas conversas finais. E manteve a promessa até hoje. Mas nunca esqueceu aquilo que via.
As lágrimas. A ansiedade. O bater nervoso dos pés. O medo. A surpresa. A incompreensão perante a proximidade inevitável da morte. Depois chegava o momento em que a vida humana se transformava num procedimento administrativo.
As algemas. As correias. A cadeira. A máscara de couro. Segundo McAndrew, essa máscara era apertada com tanta força que partia automaticamente o nariz do condenado.
“O sangue corria sempre. Mas eles não conseguiam gritar.”
Enquanto isso, juízes, advogados, testemunhas oficiais e cidadãos comuns observavam tudo. McAndrew fala hoje desses espectadores com evidente desprezo e refere-se a alguns deles como “idiotas sedentos de sangue”.

Chegava então a chamada do governador. Nenhuma suspensão. Nenhum adiamento. Nenhuma esperança. Seguia-se um gesto discreto do diretor. Quase impercetível. Do outro lado da parede, oculto da vista de todos, o carrasco compreendia a mensagem.
A execução começava. Foi assim durante anos. Até ao dia em que tudo mudou. Março de 1997. Pedro Medina estava preso à cadeira elétrica quando aconteceu aquilo que ainda hoje assombra McAndrew. Primeiro ouviu-se um estalido. Depois surgiu uma chama.
Em segundos, a cabeça do condenado começou a arder. A câmara de execução encheu-se de fumo negro. O eletricista olhou para o diretor. Perguntou-lhe se deviam interromper o processo. A resposta continua a persegui-lo.
“Disse: ‘Sim’. Continuem.”
Entre todos os arrependimentos que acumulou ao longo da vida, McAndrew considera que nenhuma palavra teve um peso tão esmagador. Aquele momento transformou-o. O cheiro da carne humana queimada espalhou-se pela prisão. Subiu pelos corredores. Chegou às celas dos restantes condenados à morte.
E nunca mais abandonou a memória do homem que supervisionava a execução.
“Todos os outros condenados à morte conseguiram sentir o cheiro de Pedro Medina a ser queimado vivo.”
Mais tarde, os relatórios oficiais concluiriam que Medina não sentira dor. McAndrew rejeita essa interpretação de forma frontal. Sem linguagem técnica. Sem cautelas institucionais. Sem rodeios.
“Nós queimámo-lo literalmente até à morte.”
Depois vieram os anos mais difíceis. O álcool. As insónias. A culpa. Os pensamentos suicidas. Os fantasmas que regressavam noite após noite. A sensação permanente de que os mortos permaneciam sentados aos pés da sua cama. McAndrew atribui à mulher, Lynne, o mérito de lhe ter salvo a vida numa fase em que já não conseguia suportar o peso das próprias memórias.
A reforma, em 2002, trouxe-lhe tempo para pensar. E foi precisamente nesse período que tomou uma decisão radical: tentar dedicar os anos que lhe restassem a combater o sistema que ajudara a servir.
Começou a testemunhar em recursos judiciais. Passou a colaborar com advogados e organizações que se opõem à pena de morte. Percorreu os Estados Unidos a falar sobre aquilo que viu. E transformou-se numa voz incómoda para um sistema do qual fez parte.
“Gostava de nunca ter ido para a Florida State Prison. Gostava de nunca me ter envolvido naquele negócio sujo.”
As críticas de McAndrew não se limitam à cadeira elétrica. Também rejeita a ideia de que a injeção letal seja um método mais humano. Para ele, trata-se apenas de uma forma diferente de executar seres humanos.
“Não foi nada humano. Se fosse humano, não seriam necessárias oito correias para prender alguém.”
Hoje, enquanto a Florida continua a registar um número elevado de execuções, o antigo diretor escreve cartas, recebe pedidos de ajuda e continua a estudar processos de condenados que alegam inocência.
A idade avançada não diminuiu a sensação de urgência. Pelo contrário. McAndrew acredita que tem a obrigação moral de contar aquilo que viu. De contar aquilo que fez. De contar aquilo que aprendeu.
“Se alguém ficar à minha frente tempo suficiente para ouvir a minha história, eu vou contá-la.”
No final da reportagem da CNN, uma tempestade aproxima-se lentamente da casa onde vive. O céu escurece. O vento aumenta. A chuva começa finalmente a cair. Ron McAndrew observa as nuvens carregadas que se acumulam sobre a paisagem da Florida.
Pensa nos homens que executou. Pensa no tempo que lhe resta. Pensa na morte que inevitavelmente também o espera. E deixa uma última frase suspensa no ar, simultaneamente serena e esmagadora.
Uma frase que resume toda uma vida de culpa, arrependimento e procura de redenção.
“Há muita gente à minha espera.”
Crédito da reportagem original: CNN Portugal. Texto de Rob Picheta. Fotografia de Tina Russell. Adaptação, contextualização e edição para o Palavra Livre.
Tags: pena de morte, Estados Unidos, Florida, Ron McAndrew, corredor da morte, direitos humanos, Pedro Medina, justiça criminal, execuções, Palavra Livre






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