Palavra em Crónica – “A casa onde as diferenças se reconhecem”

Palavra em Crónica – “A casa onde as diferenças se reconhecem”

Leitor, aproxime-se devagar. Há casas que se fecham no que cada um é. E há outras — raras — onde cada diferença acende uma luz. Esta é uma dessas casas. Aqui vivem quatro vidas que não combinam, não se parecem, não se explicam entre si. E, no entanto, leitor, convivem como se cada uma fosse a peça que faltava à outra.

A portuguesa atravessa o corredor como quem atravessa um sopro. Silenciosa, discreta, quase feita de bruma. Vem do lar de idosos com passos que carregam histórias que não são dela, mas que a habitam. Não cozinha — traz a comida do trabalho, embrulhada em caixas que guardam cuidado. Divide-a com o brasileiro sem dizer palavra. É no silêncio dela que começa a primeira ponte.

A angolana chega depois, com o corpo marcado por placas de titânio e a alma marcada por luz.
Trabalha num jardim de infância, onde as crianças lhe puxam a vida para cima. É recém-chegada ao apartamento, mas não ao afeto — o afeto nela é continente. Quando sorri, o corredor abre-se como se lembrasse que o mundo é maior do que as paredes. É no riso dela que nasce a segunda ponte.

O afegão entra quase sem ruído. Vinte e três anos, mas com um silêncio que tem rugas. Mecânico de profissão, habituado ao barulho dos motores, mas dentro de casa move-se como quem teme acordar memórias. Fala pouco — muito pouco. Mas quando o brasileiro lhe dirige a palavra, há um brilho breve, quase escondido, como uma faísca que tenta reacender-se.
É na timidez dele que se ergue a terceira ponte.

E o brasileiro — vindo da biblioteca noutra cidade — chega com o cheiro dos livros e o silêncio das páginas. É ele quem recebe a comida da portuguesa, quem escuta o afegão, quem acolhe o afeto da angolana. Move-se pela casa como quem costura mundos que não se conhecem, mas se reconhecem. É na escuta dele que se completa a quarta ponte.

Leitor, talvez pense que convivência é semelhança. Mas aqui, convivência é diferença. É diferença que não fere — ilumina. É diferença que não separa — aproxima. É diferença que não ameaça — ensina. Porque é no silêncio da portuguesa que a angolana encontra repouso.
É no afeto da angolana que o afegão encontra coragem. É na reserva do afegão que o brasileiro encontra delicadeza. É na atenção do brasileiro que todos encontram lugar.

Quatro rotinas que nunca se cruzam. Quatro ritmos que nunca se alinham. Quatro sonhos que não se tocam. E, ainda assim, leitor, quatro vidas que se reconhecem. À noite, quando cada porta se fecha, a casa não adormece. Suspira. Suspira porque sabe que ali dentro vivem quatro mundos que poderiam nunca ter-se encontrado — mas encontraram-se.

E que, apesar das diferenças — ou por causa delas — aprenderam a existir lado a lado, como quatro notas que não formam melodia, mas formam verdade. E agora, leitor, deixo-lhe apenas isto: você viveria numa casa assim, onde as diferenças não afastam, mas revelam quem somos?

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