O Dia das Mães que Gaza não consegue celebrar

O Dia das Mães que Gaza não consegue celebrar

Entre o genocídio, a fome e o colapso da saúde, as mulheres de gaza carregam o peso de sobreviver — e de manter os filhos vivos

Enquanto grande parte do mundo celebra o Dia das Mães com flores, abraços e mesas fartas, em Gaza a data se converteu num lembrete brutal de ausência, luto e sobrevivência. Após mais de dois anos e meio de ofensiva israelita, mais de 22 mil mulheres foram mortas, milhares adoeceram sem acesso a tratamento e outras tantas lutam para manter os filhos vivos em meio à fome, ao colapso dos hospitais e ao deslocamento forçado.

A história de Najat, 46 anos, diagnosticada tardiamente com cancro após a destruição dos serviços de oncologia, expõe a dimensão silenciosa do genocídio: mães que adoecem, filhas que assumem o papel de cuidadoras e crianças que crescem entre sirenes, tendas e despedidas.

“não disse feliz dia das mães — apenas rezei para que ela ficasse mais um pouco”

No mundo árabe, o Dia das Mães é celebrado a 21 de março. Em 2026, Shahed — a filha mais velha de Najat — não conseguiu pronunciar a frase que tantas famílias repetem. Em vez disso, observou a mãe, frágil após a terceira sessão de quimioterapia, lutar para permanecer acordada.

A destruição do único hospital oncológico de Gaza tornou impossível o diagnóstico precoce. Médicos estimam que o tumor de Najat crescia há quase dois anos — tempo em que exames simples teriam salvado a sua vida. Agora, ela aguarda uma mastectomia e precisa de radioterapia, inexistente no enclave. Faz parte das 20 mil pessoas que aguardam autorização para evacuação médica, num processo deliberadamente lento.

Maternidade sob cerco: parto, fome e luto

Os números revelam a dimensão da catástrofe:

  • 220 mulheres morreram durante o parto apenas entre janeiro e junho de 2025.
  • 70 mil crianças enfrentam desnutrição severa.
  • Mais de 150 mães enterraram filhos mortos pela fome.
  • 21 mil crianças foram mortas pelos bombardeamentos.
  • 22 mil mulheres perderam os maridos e agora sustentam sozinhas famílias inteiras.

A maternidade, que deveria ser um espaço de cuidado e continuidade, tornou-se um campo de batalha onde cada gesto — amamentar, procurar água, cozinhar — exige força sobre-humana.

“Onde está a mamã?” — a infância interrompida

A irmã mais nova de Shahed, de apenas três anos, pergunta todos os dias para onde a mãe foi. A resposta — “ao médico” — tenta proteger a criança de uma realidade impossível de explicar: a queda de cabelo, o cansaço extremo, o medo constante.

Enquanto cuida da casa, cozinha, limpa e tenta substituir a mãe, Shahed vive com perguntas que não a deixam descansar: Ela vai recuperar? Vai voltar a ser quem era? Quanto tempo ainda temos?

Vida em tendas, sem água, sem luz, sem descanso

A destruição das infraestruturas básicas transformou a sobrevivência num exercício diário de resistência. As famílias vivem em tendas que não protegem do calor extremo nem do frio cortante. Não há água corrente, eletricidade ou acesso regular a alimentos. Doenças proliferam. O luto é permanente.

Mesmo as mães mais resilientes estão no limite das forças.

Dor que não entra nas estatísticas

A história de Najat — como a de milhares de mulheres — dificilmente aparecerá em relatórios oficiais. O sofrimento íntimo, o medo, o desgaste emocional e físico das mães de Gaza permanece invisível, exatamente como pretendem os arquitetos da destruição.

Mas cada uma dessas histórias é um testemunho vivo de que o genocídio não mata apenas com bombas: mata com fome, com a ausência de cuidados médicos, com o adiamento deliberado de evacuações, com o colapso de tudo o que sustenta a vida.

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