A cúpula Trump–Xi: tarifas, poder e o novo tabuleiro geoeconómico global

A cúpula Trump–Xi: tarifas, poder e o novo tabuleiro geoeconómico global

A visita de Trump a Pequim reabre a disputa comercial mais decisiva do século, com impactos diretos na tecnologia, energia, agricultura e segurança internacional

Pequim confirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, visitará a China entre 13 e 15 de maio, no encontro mais importante entre Washington e Pequim desde o início da guerra comercial em 2018. A reunião ocorre num momento em que as duas maiores economias do mundo disputam cadeias de produção, semicondutores, energia e influência global — e testam uma trégua tarifária que já custou centenas de milhares de milhões de dólares em perdas acumuladas. Executivos de Boeing, Citigroup, Qualcomm e outros gigantes norte‑americanos acompanham a comitiva, numa tentativa de reabrir mercados e garantir contratos estratégicos.

Como a guerra comercial começou e por que nunca terminou

A guerra comercial teve início formal em 2018, quando Trump impôs tarifas sobre US$ 250 mil milhões em importações chinesas, alegando práticas desleais e perda de empregos industriais. A China retaliou com tarifas equivalentes, e o conflito escalou até ultrapassar 100% em alguns setores. A disputa não terminou com a saída de Trump em 2021. O governo Biden manteve as tarifas e ampliou restrições tecnológicas, bloqueando Huawei, impondo barreiras a veículos elétricos chineses e pressionando o TikTok.

Economistas citados pela BBC afirmam que Biden, em certos aspetos, foi ainda mais protecionista do que Trump — sobretudo no setor tecnológico, onde os EUA tentam travar o avanço chinês em chips avançados, computação e inteligência artificial.

Trump 2.0: tarifas como arma diplomática

De volta ao poder em 2025, Trump intensificou a estratégia tarifária:

  • 20% sobre produtos chineses, associando a medida ao combate ao fentanil;
  • 34% de sobretaxa no chamado Liberation Day, tornando as tarifas sobre a China das mais altas do mundo;
  • bloqueio temporário de semicondutores avançados;
  • pressão sobre aliados para restringirem importações chinesas.

A resposta chinesa foi imediata: tarifas sobre produtos agrícolas dos EUA, atingindo diretamente a base eleitoral rural de Trump. Mas Pequim tinha uma carta decisiva: o quase monopólio global de terras raras, essenciais para smartphones, baterias, mísseis, aviões de combate e toda a indústria tecnológica moderna. A dependência norte‑americana desses minerais forçou Washington a negociar.

O encontro de 2025 e a trégua frágil

A reunião entre Trump e Xi na Coreia do Sul, em outubro de 2025, resultou em:

  • suspensão chinesa dos controlos de exportação de terras raras;
  • retomada imediata das compras chinesas de soja e produtos agrícolas dos EUA;
  • suspensão parcial das tarifas americanas relacionadas ao fentanil;
  • pausa no aumento de tarifas recíprocas;
  • flexibilização limitada das restrições a semicondutores (exceto chips de ponta).

Apesar disso, a trégua nunca se consolidou. As tensões continuaram, e a visita de maio é vista como um teste decisivo.

A China chega mais forte: exportações recorde, robótica e chips próprios

Segundo analistas citados pela BBC, a China chega à cúpula numa posição mais robusta do que em 2018:

  • exportações em níveis recorde, graças à diversificação de parceiros;
  • investimentos massivos em robótica industrial;
  • aceleração na produção de chips nacionais, reduzindo dependência de Nvidia e outras empresas ocidentais;
  • reforço de cadeias de produção internas para setores estratégicos.

Mesmo com consumo interno fraco e crise imobiliária prolongada, a China encontrou novos mercados na Ásia, África e América Latina, compensando parte da perda de acesso ao mercado americano.

Os EUA chegam pressionados: tribunais, agricultura e semicondutores

Trump enfrenta obstáculos internos:

  • a Suprema Corte derrubou parte das tarifas do Liberation Day;
  • um tribunal de comércio considerou injustificadas as tarifas globais de 10%;
  • setores agrícolas pressionam por estabilidade nas exportações;
  • empresas de tecnologia exigem clareza sobre restrições a semicondutores.

Washington quer que Pequim aumente compras de soja, aeronaves, peças aeronáuticas e tecnologia, setores vitais para a economia americana.

O fator Irão: petróleo, energia e segurança global

A guerra no Irão é um dos elementos mais sensíveis da cúpula. A China, maior compradora de petróleo iraniano, tem conseguido amortecer parte do impacto graças a:

  • produção interna relevante;
  • importações massivas da Rússia;
  • diversificação de fornecedores;
  • reservas estratégicas.

Mas sinais de desgaste já aparecem: autoridades chinesas falam em medidas urgentes para proteger cadeias de energia e segurança de abastecimento. Para os EUA, o conflito no Irão afeta diretamente o preço global do petróleo, o estreito de Ormuz e a estabilidade dos aliados no Golfo.

Ambos têm interesse em evitar uma escalada — mas divergem profundamente sobre o papel iraniano na região.

O que está realmente em jogo

A cúpula Trump–Xi não é apenas sobre tarifas. É sobre:

  • quem liderará a transição tecnológica global;
  • quem controlará minerais críticos;
  • quem dominará cadeias de produção de energia;
  • quem moldará as regras do comércio internacional;
  • como o mundo se reorganiza entre blocos concorrentes.

É, acima de tudo, um capítulo central da disputa pelo século XXI.

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