As 190 páginas que a Procuradoria Geral da República escreveu para justificar o pedido de afastamento de Eduardo Cunha tanto do mandato de deputado federal quanto da presidência da Câmara dos Deputados são reveladoras.

Deveriam ser leitura obrigatória.

Há muita coisa requentada, já vazada aqui e ali. Porém, a apresentação do “conjunto da obra” impressiona.

O “homem do impeachment” — cujas manobras foram praticamente endossadas pelo ministro Luiz Edson Fachin, do STF — nas palavras de Rodrigo Janot transformou o Congresso em balcão de negócios.

Não é propriamente uma novidade, mas nunca isso tinha sido demonstrado de forma tão clara, a partir de mensagens de texto trocadas entre Cunha e seus “contratantes”.

O STF foi colocado numa situação vexatória: tem de decidir ao mesmo tempo sobre o rito do impeachment autorizado por Eduardo Cunha e sobre o afastamento do homem que instalou o processo!

Mas, sendo o processo de impeachment eminentemente político, as duas coisas não se confundem?

Para o STF, aparentemente, não.

A comissão instalada por Eduardo Cunha com maioria da oposição provavelmente será mantida, enquanto ele corre o risco de perder o mandato!

Mas, o que fazia o agora aliado do PSDB na aventura do golpe contra Dilma Rousseff?

Segundo o PGR, ele vendeu emendas parlamentares numa dimensão nunca vista antes neste país, como deputado e presidente da Câmara.

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Segundo Janot, as emendas eram escritas por empresários e abraçadas por Cunha ou aliados dele em troca de propina.

Manuel Ribeiro Filho, diretor da OAS, trocou mensagens de texto com o atual presidente da Câmara em 2012, narrando um acerto envolvendo R$ 1,5 milhão, mais R$ 400 mil, pela apresentação de emendas que beneficiavam a empreiteira.

Uma das medidas provisórias, a 584, dizia respeito a obras para as Olimpíadas de 2016.

Aparentemente a pedido do prefeito Eduardo Paes, Cunha atuou para que emendas de interesse da OAS fossem apresentadas.

Segundo a PGR, depois das tratativas de Cunha coube ao então deputado federal Francisco Dornelles (PP-RJ), hoje vice-governador do Rio, apresentar nada menos que 15 emendas à MP, uma delas dando desoneração tributária às obras de mobilidade feitas para as Olimpíadas.

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As mentiras de Eduardo Cunha ficam ainda mais transparentes depois da leitura do documento da PGR.

Embora Janot reproduza muitas denúncias publicadas na imprensa para reforçar seus argumentos, há documentos de clareza límpida.

Eduardo Cunha e seu amigo, o doleiro Lúcio Funaro — que a mídia às vezes elegantemente chama de “corretor” — negam relações comerciais, mas Funaro comprou dois dos automóveis da frota de luxo do presidente da Câmara!

Presentes avaliados em R$ 180 mil reais. Na verdade, segundo acusação da PGR, foi em pagamento por serviços prestados por Cunha a Funaro em… emendas parlamentares.

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Outro detalhe curioso diz respeito às famosas contas de Eduardo Cunha na Suiça, aquelas das quais ele se diz apenas “usufrutuário”.

Depois de descrevê-las pormenorizadamente,com seus valores altíssimos — não declarados à Justiça Eleitoral, nem ao Fisco –, Janot faz questão de introduzir um documento que sustenta a pergunta seguinte.

Como é que a mulher de Cunha, Cláudia, poderia ter aqueles valores depositados no Exterior, se ela se declarou dona-de-casa —housewife — ao preencher formulário bancário na Suiça?

Eduardo Cunha nega todas as acusações e diz que é vítima de retaliação da PGR para desviar o foco do processo de impeachment. A pergunta que não será feita pela mídia é se Cunha comprou votos de deputados para se eleger presidente da Câmara. Isso, não vem ao caso…

Do Viomundo, Luiz Carlos Azenha

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Autor

salvadornetooficial@gmail.com

Jornalista e escritor. Criador e Editor do Palavra Livre, cofundador da Associação das Letras com sede no Brasil (SC). Foi criador e apresentador de programas de TV e Rádio como Xeque Mate, Hora do Trabalhador entre outros trabalhos na área. Tem mais de 35 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, assessoria de imprensa, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011), Gente Nossa (2014) e Tinha um AVC no Meio do Caminho (2024). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde foi diretor de comunicação.

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