Arizona enfrenta cortes de água enquanto comunidades se levantam contra megacentros de dados

Arizona enfrenta cortes de água enquanto comunidades se levantam contra megacentros de dados

Em meio à pior seca em 30 anos, moradores de Tucson e cidades vizinhas travam uma batalha decisiva contra projetos bilionários de data centers que prometem empregos, mas ameaçam água, energia e o futuro ambiental do deserto.

A crise hídrica no Arizona, nos Estados Unidos, deixou de ser uma projeção climática para se tornar uma realidade que molda decisões políticas, econômicas e sociais. Com cortes iminentes no fornecimento de água do Rio Colorado — que já perdeu 20% de seu fluxo desde 2000 — comunidades locais passaram a enfrentar um novo adversário: a expansão agressiva de megacentros de dados no coração do deserto.

Em Tucson, onde o calor bate recordes históricos e a seca já dura três décadas, moradores como Marisol Winfrey Herrera transformaram a rotina doméstica em ativismo. A filha de três anos, Jo, aprende na creche a economizar água e a ajudar moradores de rua com garrafas de gelo. Esses gestos simples se tornaram símbolo de uma mobilização maior: o movimento No Desert Data Center, que reúne cidadãos preocupados com o impacto dos gigantes tecnológicos sobre recursos naturais cada vez mais escassos.

O projeto bilionário que acendeu o alerta

O chamado Project Blue, dividido em duas instalações avaliadas em mais de US$ 8 bilhões, prometia milhares de empregos temporários e centenas permanentes. Para seus defensores, seria o motor econômico que Tucson precisava. Para seus críticos, representava uma ameaça direta ao abastecimento de água e ao já sobrecarregado sistema energético local.

Moradores de Tucson levantaram dúvidas em uma reunião pública sobre se os aumentos propostos de tarifas pela TEP, sua concessionária de energia, se devem à expansão da capacidade dos data centers

[Foto cortesia de Kathleen Dreier]

A empresa Beale Infrastructure, responsável pelo empreendimento, solicitou que a cidade adquirisse 290 acres fora dos limites urbanos — o que a tornaria o maior consumidor de água de Tucson. A proposta mobilizou centenas de moradores, que lotaram reuniões públicas para pressionar o conselho municipal.

A decisão foi histórica: os vereadores votaram unanimemente contra fornecer água e energia ao projeto, obrigando a empresa a rever seus planos e recorrer a sistemas de refrigeração por ar, mais caros e ainda mais intensivos em energia.

Empregos versus sobrevivência ambiental

A disputa expôs um dilema clássico: desenvolvimento econômico ou preservação ambiental. Sindicatos viram nos data centers uma oportunidade de trabalho para milhares de profissionais da construção civil. Ambientalistas alertaram para o risco de transformar Tucson em uma ilha de calor ainda mais extrema, com servidores e ar-condicionados funcionando 24 horas por dia.

Estudos recentes mostram que áreas próximas a data centers podem registrar aumento de até 1,22°C na temperatura — um impacto significativo em regiões que já ultrapassam facilmente os 44°C no verão.

A expansão para cidades vizinhas

Mesmo após o revés em Tucson, a corrida por data centers continuou. Em Marana, cidade agrícola próxima, moradores lançaram uma campanha para impedir a mudança de zoneamento que permitiria a construção de um complexo de 600 acres. A mobilização não teve sucesso, mas despertou uma nova liderança local: Jackie McGuire, mãe de três filhos, que decidiu concorrer ao conselho municipal com a promessa de fiscalizar o projeto e exigir transparência.

Enquanto isso, no condado de Pinal, outro megaempreendimento — o La Osa, inicialmente planejado para abrigar 59 data centers — teve de ser reduzido após forte oposição popular.

A água como fronteira política

O Arizona vive uma disputa histórica pelo acesso ao Rio Colorado, compartilhado com a Califórnia. A escassez atual reacende tensões e pressiona autoridades a priorizar usos essenciais. Especialistas alertam que, embora data centers consumam menos água que fazendas de alfafa, eles não estão sujeitos às mesmas regras de reposição de aquíferos — o que adiciona “mais um canudo no reservatório”, como descreve a pesquisadora Sharon Medgal.

Com a eleição estadual se aproximando, o tema tornou-se central nas campanhas. A governadora Katie Hobbs defende que o estado precisa de mais água para sustentar indústrias estratégicas, incluindo tecnologia e semicondutores.

Uma história em curso

Apesar das vitórias parciais, ativistas do No Desert Data Center afirmam que a luta está longe de terminar. O Project Blue já iniciou obras, e moradores denunciam o uso de caminhões-pipa e perfuração de poços para abastecer o canteiro. Para eles, a batalha não é apenas contra empresas, mas pela sobrevivência de comunidades que vivem no limite climático.

“Não é uma história de vitória ainda”, diz Vivek Bharathan, porta-voz do movimento. “É uma história que continua.”

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