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O País dos Espelhos: Como a corrida solar está a reescrever a paisagem portuguesa

O País dos Espelhos: Como a corrida solar está a reescrever a paisagem portuguesa

A transição energética avança depressa, mas o território paga o preço. Entre metas climáticas e lucro imediato, Portugal arrisca transformar sustentabilidade em extrativismo verde.

A nova paisagem que nasce nas estradas portuguesas

Quem percorre hoje as estradas do Ribatejo e do Alentejo percebe que o país está a mudar. Ao aproximar-se de Lisboa ou ao regressar ao interior, o olhar já não encontra apenas culturas agrícolas, manchas de montado ou campos de sequeiro. Em muitos pontos, surgem extensões de painéis solares que ocupam hectares inteiros, alinhados como espelhos industriais. O fenómeno repete-se com tal consistência que deixou de ser exceção: tornou-se tendência.

O discurso oficial fala em metas climáticas, modernização e energia limpa. Mas no terreno, a realidade é mais complexa. A transição energética portuguesa avança a um ritmo que ultrapassa a capacidade de planear o território. E quando a velocidade supera o pensamento, surgem contradições que não podem ser ignoradas.

Terrenos agrícolas convertidos em plataformas energéticas

Ao longo de vários quilómetros, é possível observar áreas agrícolas transformadas em parques fotovoltaicos. Em alguns casos, culturas tradicionais desapareceram. Em outros, zonas verdes foram limpas para facilitar a instalação das estruturas metálicas. A lógica que orienta estas decisões é simples: terrenos planos, acessíveis e baratos são mais atrativos para investidores do que áreas industriais ou degradadas, mesmo que estas últimas fossem ambientalmente mais adequadas.

O que está a acontecer não resulta de irracionalidade humana, mas de incentivos económicos que empurram o país para escolhas que parecem contradizer a própria ideia de sustentabilidade. Instalar painéis solares gera lucro rápido. Manter agricultura, preservar montado ou proteger ecossistemas não gera. A equação é desequilibrada desde o início, e o mercado segue o caminho que lhe é mais favorável.

Extrativismo verde: quando o “limpo” também destrói

A narrativa pública transforma estes investimentos em símbolos de modernidade, mesmo quando implicam perda de biodiversidade ou descaracterização da paisagem. O termo extrativismo verde descreve bem este fenómeno: práticas que se apresentam como sustentáveis, mas que reproduzem a mesma lógica de exploração que historicamente marcou outros setores. A diferença é que agora a exploração é feita em nome do ambiente.

O marketing faz o resto. A ideia de “energia limpa” mascara impactos reais e permite que projetos ambientalmente agressivos se apresentem como inevitáveis ou virtuosos. É uma forma sofisticada de greenwashing, mas com consequências muito mais profundas.

As alternativas existem — mas exigem coragem política

Portugal tem potencial para expandir energia solar sem destruir áreas verdes. Há milhares de telhados públicos e privados onde poderiam ser instalados painéis. Existem zonas industriais abandonadas, pedreiras desativadas, aterros e áreas já degradadas que poderiam receber projetos fotovoltaicos sem impacto ecológico significativo. Há ainda modelos como o agrovoltaico, que permite combinar agricultura e produção energética no mesmo espaço.

Mas estas alternativas exigem planeamento, regulação e coragem política — três elementos que nem sempre acompanham a urgência das metas climáticas. A ausência de um mapa nacional vinculativo que defina claramente onde se pode instalar energia renovável é um dos fatores que mais contribui para o problema. Sem esse instrumento, cada município decide como pode ou como quer, muitas vezes pressionado por investidores e pela promessa de receita fiscal.

O colapso não é futuro: é processo

O colapso ambiental não é um evento súbito. É um processo. Começa com a perda de solos férteis, continua com a escassez de água, agrava-se com eventos climáticos extremos e manifesta-se na fragilização das comunidades rurais. Portugal já sente alguns destes sinais. E cada hectare de natureza perdido para projetos mal planeados aproxima-nos de um cenário que não pode ser tratado como inevitável.

A pergunta que fica

Como é possível que, sabendo o que sabemos sobre alterações climáticas, continuemos a destruir aquilo que deveríamos proteger? A resposta não está na falta de inteligência humana, mas na falta de inteligência coletiva. Somos capazes de compreender o problema, mas incapazes de alinhar incentivos económicos, decisões políticas e práticas empresariais com aquilo que a ciência há décadas nos diz.

A transição energética é necessária. Mas não pode ser feita contra o território. Tem de ser feita com ele. E isso exige mais do que metas e inaugurações. Exige visão, planeamento e coragem para contrariar a lógica do lucro imediato.

Portugal está num ponto crítico. Se continuar a expandir energia renovável à custa da natureza, arrisca-se a trocar um problema por outro. A pergunta final não é se somos inteligentes. É se somos capazes de transformar inteligência em sabedoria antes que seja tarde demais

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