De implantes neurais capazes de devolver movimentos a pessoas com lesões medulares até terapias celulares avançadas contra o cancro, a China consolida-se como uma das principais referências mundiais em medicina de ponta, atraindo um número crescente de pacientes estrangeiros.
A medicina chinesa vive um momento de afirmação internacional sem precedentes. Impulsionado por avanços em áreas como neurocirurgia, interfaces cérebro-computador, terapia celular e oncologia, o país asiático está a receber cada vez mais pacientes vindos do exterior em busca de tratamentos que, em muitos casos, ainda não estão disponíveis ou apresentam resultados limitados nos seus países de origem.
Um dos exemplos mais marcantes é o da jovem russa Vera, nome fictício utilizado para preservar a identidade da paciente. Aos 12 anos, após sofrer uma grave lesão medular num acidente de viação em junho de 2025, a menina perdeu os movimentos dos membros inferiores e passou a depender de uma cadeira de rodas. Depois de várias tentativas de tratamento sem sucesso na Rússia, viajou para Hangzhou, na província chinesa de Zhejiang, onde recebeu um implante neural desenvolvido localmente.
O dispositivo funciona através de uma interface neural da medula espinhal em circuito fechado, concebida para amplificar sinais motores debilitados provenientes do cérebro e contornar a área lesionada da medula. Após três meses de reabilitação personalizada, Vera voltou a dar passos com assistência, tornando-se a primeira paciente estrangeira com este tipo de lesão a recuperar a marcha assistida na China após a implantação do sistema.
O caso simboliza uma realidade mais ampla. Segundo dados da Comissão Nacional de Saúde da China, os principais hospitais chineses registaram cerca de 1,28 milhão de atendimentos a pacientes internacionais em 2025, representando um crescimento de 73,6% em comparação com três anos antes. O número de pacientes oriundos da Europa e dos Estados Unidos duplicou no mesmo período.
Embora os pacientes estrangeiros ainda representem uma parcela reduzida do movimento hospitalar total, diversas instituições médicas chinesas relatam uma procura crescente por tratamentos especializados. A combinação de investigação intensiva, grande volume de casos clínicos e investimentos públicos em inovação médica tem fortalecido a posição da China no cenário internacional da saúde.
Os números ajudam a explicar essa ascensão. Em 2025, a Administração Nacional de Produtos Médicos da China aprovou 76 medicamentos inovadores e 76 dispositivos médicos inovadores para comercialização, ambos recordes históricos. No final do mesmo ano, o país contabilizava 4.751 fármacos inovadores em desenvolvimento, correspondendo a 33,7% de todos os medicamentos inovadores em pesquisa no mundo.
Entre as inovações que mais chamam a atenção da comunidade científica internacional está a terapia CAR-T para tumores sólidos. Aprovada em junho, foi apresentada como a primeira do mundo destinada ao tratamento deste tipo de cancro. A tecnologia utiliza células do próprio sistema imunitário do paciente, modificadas geneticamente para reconhecer e atacar células cancerígenas.
Um dos primeiros beneficiados foi Josh, um cidadão da Nova Zelândia de 59 anos. Depois de ser informado de que os tratamentos convencionais contra o cancro gástrico já não estavam a produzir resultados, viajou para a China para receber a nova terapia. Após um programa intensivo de tratamento, o paciente regressou ao seu país em agosto com melhorias significativas, retomando gradualmente a alimentação normal.
Especialistas estrangeiros reconhecem a evolução chinesa. O hematologista russo Renat Badaev descreveu a China como uma das líderes mundiais em terapia celular e genética, destacando o elevado nível dos cuidados médicos e os grandes investimentos realizados em tecnologias avançadas. Outros profissionais da área apontam ainda para a vasta experiência clínica acumulada pelo país graças ao elevado número de transplantes e tratamentos CAR-T realizados todos os anos.
Para Chen Gao, diretor de neurocirurgia do Segundo Hospital Afiliado da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang, o caso de Vera demonstra que os avanços tecnológicos chineses estão a ultrapassar as fronteiras nacionais. Segundo o médico, os progressos nas áreas da neurocirurgia e das interfaces cérebro-computador estão a sair dos laboratórios e a aproximar-se de aplicações clínicas cada vez mais padronizadas e acessíveis.
Mais do que uma corrida tecnológica, a transformação da medicina chinesa revela uma mudança profunda no mapa global da saúde. Ao atrair pacientes de diferentes continentes e ao desenvolver tratamentos pioneiros para doenças complexas, a China procura posicionar-se não apenas como uma potência económica e científica, mas também como um centro internacional de inovação médica capaz de oferecer novas oportunidades de vida e recuperação a milhares de pessoas em todo o mundo.
- com informações da Agência Xinhua






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