A obra que sacudiu Veneza e reacende o debate sobre tecnologia militar, ética e responsabilidade internacional
Na noite de 10 de setembro de 2026, o Festival de Cinema de Veneza viveu um daqueles raros momentos em que a arte ultrapassa a estética e se transforma em denúncia. Durante 25 minutos de aplausos ininterruptos, o público permaneceu de pé após a estreia de Naza, documentário dos jornalistas investigativos Yuval Abraham e Rachel Szor. A obra, apresentada em competição oficial, não é apenas um filme: é um testemunho perturbador sobre os mecanismos tecnológicos que, segundo depoimentos de militares israelenses, têm sido usados para eliminar civis palestinos de forma sistemática na Faixa de Gaza.
O impacto foi imediato. Veneza, acostumada a ovacionar grandes produções, viu-se confrontada com um filme que não oferece conforto, nem catarse — apenas a crueza de uma realidade que muitos preferem não ver.
O que significa “Naza” — e por que o termo é tão devastador
O título do documentário deriva de uma expressão usada internamente pelo exército israelense: “Naza”, o número de civis supostamente mortos em um ataque aéreo. A frieza do termo, revelada pelos próprios agentes de inteligência entrevistados, é o ponto de partida para compreender a lógica operacional descrita no filme.
Ao longo de meses, Abraham e Szor recolheram depoimentos de 24 soldados, incluindo oficiais do serviço secreto, filmados anonimamente em telhados de Tel Aviv. Suas silhuetas escuras, vozes distorcidas e relatos minuciosos compõem um mosaico de testemunhos que descrevem um sistema de vigilância e ataque apoiado por inteligência artificial, espionagem digital e monitorização massiva da população palestina.
A engenharia da morte: tecnologia, dados e decisões automatizadas
Os depoimentos revelam que a infraestrutura de telecomunicações controlada por Israel permite acesso direto aos telefones de palestinos — inclusive escuta em tempo real dos últimos momentos de famílias prestes a serem bombardeadas. Um dos agentes afirma que “não havia problema com os Naza”, indicando que a morte de civis era tratada como variável operacional, não como falha.
Segundo os testemunhos, sistemas de IA identificavam suspeitos de ligação ao Hamas e, automaticamente, suas famílias e vizinhos. O resultado: prédios inteiros demolidos para atingir um único alvo humano. Um soldado chega a afirmar que, em certos ataques, até 500 pessoas foram mortas para eliminar um único indivíduo.
A precisão tecnológica, longe de reduzir danos, teria ampliado a escala da destruição.
“Era um jogo”: a banalização da violência
Entre os relatos mais chocantes está a resposta de um militar quando questionado por Abraham se aquilo não configurava um massacre de massa. Ele responde: “Era um jogo.” A frase, curta e brutal, sintetiza o abismo ético revelado pelo documentário.
A maioria dos entrevistados tenta justificar sua participação dizendo: “Meu papel é técnico.” “Cumprimos a missão.” “Eu era apenas um pequeno engrenagem.” Essa tentativa de distanciamento moral ecoa debates históricos sobre responsabilidade individual em estruturas militares altamente hierarquizadas.
A zona de aniquilação: quando a política é destruir tudo
O filme descreve a evolução dos ataques “cirúrgicos” — que já tinham margem de erro de 15% — para a criação de uma “zona de aniquilação”, onde a política seria “destruir tudo o mais rápido possível”. Um dos testemunhos afirma: “Apagámos a história.”
Abraham interpreta essa estratégia como parte de um objetivo maior: empurrar a população de Gaza para os 30% do território ainda não sob controle direto de Israel e, eventualmente, expulsá-la completamente da região.
O contexto: Gaza após 7 de outubro
O documentário relembra que, desde a ofensiva israelense iniciada após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, mais de 73 mil palestinos foram mortos, segundo dados citados no filme. Abraham afirma que estimativas independentes sugerem números ainda maiores.
A obra não relativiza o ataque do Hamas — que matou 1.221 pessoas em Israel — mas insiste que a resposta militar ultrapassou qualquer parâmetro de proporcionalidade e que a tecnologia desempenhou papel central na escala da devastação.
O cinema como testemunho e como prova
Naza surge na esteira de outros filmes que denunciaram a violência na região. Em 2025, A Voz de Hind Rajab — sobre a morte de uma menina palestina de 5 anos — também foi ovacionado em Veneza. A presença repetida desses filmes no festival indica que o cinema se tornou um dos poucos espaços capazes de expor, com profundidade e alcance global, aquilo que relatórios oficiais muitas vezes não conseguem ou não querem revelar.
Por que este filme importa — e por que o leitor deve chegar ao fim
Naza não é apenas um documentário sobre guerra. É um alerta sobre o futuro da tecnologia militar, sobre a capacidade de algoritmos decidirem quem vive e quem morre, e sobre a facilidade com que sociedades inteiras podem normalizar a violência quando ela é mediada por telas, dados e comandos remotos.
Ao transformar depoimentos anónimos em narrativa cinematográfica, Abraham e Szor devolvem humanidade às vítimas e responsabilidade aos agentes. O filme obriga o espectador — e agora o leitor — a confrontar perguntas difíceis:
- Quem controla a tecnologia que decide vidas?
- O que acontece quando a guerra se torna automatizada?
- Como responsabilizar indivíduos dentro de sistemas que diluem culpa?
- Até onde pode ir um Estado quando acredita que “não há inocentes”?
Conclusão: Veneza aplaudiu — o mundo precisa reagir
A ovação de 25 minutos não foi apenas reconhecimento artístico. Foi um gesto político, um pedido coletivo para que o mundo não desvie o olhar. Naza é um documento histórico, um testemunho urgente e uma peça de resistência cultural.
Se o cinema tem o poder de revelar o que está escondido, este filme cumpre essa missão com coragem rara. E, ao fazê-lo, deixa claro que a discussão sobre Gaza, tecnologia militar e direitos humanos não pode continuar a ser adiada.






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