Da brincadeira inocente às bases de treinamento de gigantes da tecnologia, a nova onda de filtros e avatares revela como estamos entregando — de graça — partes essenciais da nossa identidade digital.
O fim de semana prolongado trouxe uma sensação curiosa de déjà-vu às redes sociais. De repente, o Instagram parecia ter sido transportado para 1986: cabelos armados, jaquetas bufantes, neon por todos os lados e aquela granulação nostálgica das câmeras analógicas. A trend “como eu seria nos anos 80”, criada com ferramentas de IA, explodiu em buscas e tomou conta dos feeds.
A estética divertida, porém, esconde uma engrenagem mais complexa — e mais cara do que parece. Como explica o jornalista Gustavo Miller, autor da coluna publicada no UOL , cada selfie enviada para gerar essas imagens não desaparece quando o resultado é entregue. Em muitos casos, ela passa a integrar o material usado para treinar novos modelos de inteligência artificial.
E quase ninguém percebe.
Os tutoriais repetem o mantra: “use uma foto com o rosto nítido e bem iluminado”. Quanto melhor a imagem, melhor o resultado — e maior o valor do dado entregue. A troca parece justa: você ganha uma versão estilizada de si mesmo, a empresa ganha mais um fragmento do seu rosto, sua voz, seus gestos. Mas essa equação tem implicações profundas.
O mercado invisível dos datasets
A IA generativa nasceu varrendo a internet: textos, vídeos, fóruns, legendas, tudo o que estava disponível gratuitamente. Hoje, esse material já foi quase totalmente digerido. Para continuar evoluindo, as empresas precisam de dados novos, consentidos, organizados — e isso custa caro.
É aí que entram as trends. Em vez de pagar milhares de pessoas para fornecer imagens em diferentes idades, estilos e expressões, as plataformas recebem esse material espontaneamente, embalado em diversão.
O texto de Miller lembra ainda o caso da Tools for Humanity, empresa ligada a Sam Altman, que montou postos para escanear íris em troca de criptomoedas. No Brasil, cerca de 500 mil pessoas aceitaram a oferta. O Ministério Público de São Paulo processou a companhia, apontando falta de transparência e risco à privacidade.
O padrão se repete: primeiro demos atenção às redes sociais; depois, afeto às inteligências artificiais; agora, entregamos o corpo — rosto, voz, gestos, até a íris.
O que está em jogo
Não se trata de demonizar a tecnologia nem de proibir a brincadeira. Trata-se de consciência. As plataformas escondem, em menus profundos, a opção de impedir que seus dados sejam usados para treinar modelos. Poucos sabem, menos ainda ativam.
O custo dessas trends não aparece no cartão. Ele surge no futuro, quando versões distorcidas de nós mesmos — envelhecidas, rejuvenescidas, estilizadas — passam a pertencer um pouco mais às empresas e um pouco menos a nós.
Crédito
Matéria baseada na coluna “Trend dos anos 80: o que você entregou de graça para a IA”, de Gustavo Miller, publicada no UOL em 09/09/2026 .






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