Na cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, no Quirguistão, o secretário-geral da ONU lança um dos seus mais duros alertas dos últimos anos e pede aos líderes mundiais que interrompam os conflitos que ameaçam a estabilidade global
Num momento em que a guerra parece ter voltado a ocupar o centro da política internacional, António Guterres decidiu abandonar os rodeios diplomáticos. Diante de líderes que representam algumas das maiores potências do planeta, o secretário-geral das Nações Unidas fez um apelo direto, quase angustiado: “é hora de acabar com esta loucura”.
A declaração foi feita em Bishkek, capital do Quirguistão, durante a realização da cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), bloco político e económico que reúne países como China, Rússia, Índia, Paquistão e Irão. Falando à Euronews, Guterres não escondeu a preocupação diante da persistência de conflitos que continuam a devastar regiões inteiras e a projetar insegurança sobre o restante do mundo.
A mensagem ganha peso não apenas pelo cargo que ocupa, mas pelo contexto em que foi pronunciada. Na mesma sala encontravam-se alguns dos protagonistas centrais das atuais crises internacionais. Para o chefe da ONU, essa circunstância transformava o encontro numa oportunidade rara para exigir ações concretas em favor da paz.
Um planeta cansado de guerras
As palavras de Guterres refletem uma realidade cada vez mais evidente: o mundo enfrenta conflitos que parecem não ter fim. A guerra entre Rússia e Ucrânia continua a produzir consequências humanitárias, económicas e geopolíticas. No Médio Oriente, a instabilidade mantém-se elevada, alimentada pelos confrontos em Gaza e pelas tensões envolvendo Irão e Estados Unidos.
O secretário-geral afirmou que uma das maiores preocupações da ONU é precisamente a sensação de permanência dessas guerras. Conflitos que deixam de ser encarados como exceções e passam a integrar o cotidiano da política internacional.
Essa normalização da violência preocupa observadores e especialistas. Afinal, quanto mais longas se tornam as guerras, mais difícil parece a construção de consensos para encerrá-las. O risco é que a comunidade internacional se habitue a crises permanentes, enquanto milhões de pessoas continuam a sofrer as consequências diretas dos confrontos.
O dossiê explosivo do Irão
Entre os temas abordados por Guterres, a situação envolvendo o Irão ocupou lugar de destaque. O líder das Nações Unidas lamentou a retomada de ataques e defendeu aquilo que classificou como “contenção máxima”.
Segundo ele, houve um momento em que as negociações diplomáticas pareciam suficientemente avançadas para abrir caminho a um entendimento. A interrupção desse processo e o regresso das hostilidades representam, na sua avaliação, um retrocesso perigoso.
Ao defender o reinício imediato das conversações, Guterres voltou a sublinhar um princípio que tem orientado a sua atuação desde que assumiu o comando da ONU: não existe solução militar duradoura para conflitos de elevada complexidade geopolítica.
O secretário-geral também destacou a importância de garantir a plena liberdade de navegação em corredores marítimos estratégicos como o Estreito de Ormuz e Bab el-Mandeb, regiões fundamentais para o comércio global e para o fornecimento de energia ao mercado internacional.
Um novo equilíbrio mundial
Por trás do apelo pela paz está igualmente uma transformação mais profunda do cenário internacional. Guterres afirmou que o mundo vive uma fase cada vez mais multipolar, na qual centros de poder deixam de estar concentrados num pequeno grupo de países e passam a distribuir-se por diferentes regiões. Nesse contexto, organizações regionais tornam-se protagonistas na gestão das crises e na construção de parcerias globais.
É precisamente essa lógica que explica a presença do secretário-geral na cimeira da Organização de Cooperação de Xangai.
Ao longo dos últimos 25 anos, a OCS transformou-se num dos mais relevantes fóruns de cooperação da Eurásia. Os seus dez membros representam mais de 40% da população mundial e incluem algumas das economias mais dinâmicas do planeta. Entre os participantes do encontro estavam líderes como Xi Jinping, Vladimir Putin, Narendra Modi, Recep Tayyip Erdoğan e Masoud Pezeshkian.
Para Guterres, ignorar o peso crescente da Ásia seria ignorar uma parte decisiva do futuro global.
O desafio da paz
Mais do que uma frase de efeito, o pedido para “parar com esta loucura” revela o sentimento de urgência que atravessa as Nações Unidas diante do atual panorama internacional.
Num mundo onde guerras prolongadas se multiplicam, onde rivalidades estratégicas se aprofundam e onde a diplomacia luta para recuperar terreno, a voz do secretário-geral surge como um lembrete de que a paz continua a ser uma escolha política. A questão é saber se os líderes reunidos em Bishkek estão dispostos a ouvi-la.
Porque, enquanto as negociações permanecem frágeis e os combates continuam a marcar o dia a dia de milhões de pessoas, o maior desafio da comunidade internacional talvez seja justamente aquele sintetizado por António Guterres em poucas palavras: substituir a lógica do conflito pela coragem do diálogo.
Fonte Primária: Euronews.






Deixe um comentário