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Ditadura e grandes empresas: novo livro reacende debate sobre o papel das montadoras na repressão no Brasil

Ditadura e grandes empresas: novo livro reacende debate sobre o papel das montadoras na repressão no Brasil

Obra baseada em três anos de investigação reúne documentos, testemunhos e indícios de colaboração empresarial com o aparelho repressivo do regime militar, ampliando discussões abertas pela Comissão Nacional da Verdade e por investigações do Ministério Público.

Durante décadas, a história da ditadura militar brasileira (1964-1985) foi contada principalmente a partir da atuação das Forças Armadas, dos órgãos de segurança e da resistência política. Um novo livro lançado em São Paulo, porém, volta os holofotes para um tema que ganhou força apenas nos últimos anos: a participação de grandes empresas na sustentação do regime.

A obra Repressão Sociedade Anônima, dos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, apresenta o resultado de três anos de pesquisa documental e entrevistas. O trabalho concentra-se especialmente em cinco montadoras com forte presença no Grande ABC Paulista: Volkswagen, Mercedes-Benz, Ford, General Motors e Scania. Segundo os autores, a investigação aponta para diferentes formas de colaboração empresarial com os mecanismos de vigilância, controlo e repressão então existentes.

O lançamento ocorre num contexto em que já existem investigações oficiais e relatórios públicos sobre a relação entre empresas e o regime militar. Em 2021, um relatório conjunto do Ministério Público Federal, do Ministério Público do Estado de São Paulo e do Ministério Público do Trabalho concluiu que a Volkswagen manteve colaboração com órgãos repressivos e participou de práticas que contribuíram para violações de direitos humanos durante a ditadura. O documento baseou-se em inquéritos iniciados em 2015, após representações de centrais sindicais e entidades da sociedade civil.

A investigação oficial também dialogou com um estudo encomendado pela própria Volkswagen ao historiador alemão Christopher Kopper. No relatório apresentado em 2017, o pesquisador concluiu que a subsidiária brasileira da empresa foi “irrestritamente leal” ao governo militar e compartilhou os seus objetivos económicos e de política interna.

Vigilância nas fábricas

Segundo os autores de Repressão Sociedade Anônima, a colaboração empresarial não se limitava ao apoio político ao regime. Trabalhadores considerados problemáticos eram monitorizados, fichados e, em diversos casos, impedidos de conseguir novos empregos por meio de listas negras distribuídas entre empresas do sector industrial.

A investigação relata ainda a presença de informantes infiltrados entre os operários, responsáveis por identificar lideranças sindicais ou participantes de greves. O objectivo era neutralizar reivindicações trabalhistas que pudessem ser interpretadas como ameaça à estabilidade do regime ou à produtividade das empresas.

O Grande ABC, principal centro industrial do país naquele período, tornou-se um dos focos da vigilância. Os autores afirmam ter encontrado evidências da existência de uma estrutura paralela de controlo ligada ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), conhecida informalmente como “Dopinho do ABC”, utilizada para monitorizar activistas sindicais e movimentos populares da região.

A dimensão económica da ditadura

A discussão sobre responsabilidade empresarial ganhou relevância a partir dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada em 2012 para investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988. O relatório final da comissão, entregue em 2014, dedicou atenção crescente à colaboração entre sectores empresariais e o Estado autoritário, tema posteriormente aprofundado por investigadores e pelo Ministério Público.

Estudos académicos recentes destacam que o reconhecimento oficial dessa participação representa um avanço importante para a chamada justiça de transição. No entanto, especialistas observam que ainda existem limitações na responsabilização institucional e na implementação das recomendações formuladas pela CNV.

Os autores do livro

A relevância económica das montadoras durante o chamado “milagre económico” brasileiro ajuda a compreender a proximidade entre governo e sector industrial. Nos anos de maior crescimento da economia, entre o final da década de 1960 e meados da década de 1970, a indústria automóvel recebeu incentivos públicos significativos e consolidou-se como um dos pilares do projecto de desenvolvimento defendido pelos militares.

Reconhecimento, negação e reparação

As conclusões sobre a participação empresarial não são consensuais. Algumas empresas rejeitam as acusações ou afirmam não ter identificado evidências conclusivas de apoio institucional à repressão. No caso da Volkswagen, entretanto, a empresa assinou em 2020 um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, comprometendo-se a destinar R$ 36,3 milhões para iniciativas de direitos humanos e para compensação de ex-trabalhadores perseguidos durante a ditadura.

Já no novo livro, as demais montadoras citadas apresentam posições diversas. Algumas afirmam repudiar violações de direitos humanos; outras contestam as alegações ou alegam não possuir documentação suficiente sobre o período.

Memória ainda em construção

Mais de quatro décadas após o fim do regime militar, investigadores sustentam que uma parte significativa dessa história permanece por esclarecer. A destruição de arquivos, a dispersão de documentos e o reduzido acesso a alguns acervos dificultam a reconstituição completa dos acontecimentos.

Ainda assim, trabalhos como Repressão Sociedade Anónima indicam que a compreensão da ditadura brasileira exige olhar não apenas para a repressão estatal, mas também para as relações estabelecidas entre poder político e interesses empresariais.

Ao trazer novos testemunhos e cruzar documentação dispersa, a obra reacende um debate essencial para a democracia brasileira: até que ponto os benefícios económicos do período foram acompanhados por estruturas de controlo social, perseguição política e violação de direitos fundamentais.

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