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Eu vivi a ditadura. Por isso não brinco com a democracia

Eu vivi a ditadura. Por isso não brinco com a democracia

Memórias de uma geração que cresceu entre o medo, a censura e a esperança da redemocratização, e que hoje assiste, perplexa, ao avanço da desinformação, do extremismo político e das ameaças à democracia.

Por Salvador Neto

Ainda me lembro das conversas mais duras dentro de casa, lá na década de 1970. Eu era apenas um menino, mas sabia que existiam assuntos que exigiam cautela. As palavras surgiam em voz baixa, quase sussurradas: ditadura, democracia, Arena, MDB, censura. Eu não compreendia completamente o significado daqueles termos, mas percebia que carregavam um peso diferente. Havia medo. Havia preocupação. Havia silêncio.

Também me lembro de quando o meu pai me levava à secção eleitoral. As ruas estavam cobertas de santinhos e papéis espalhados pelo chão. Rostos estranhos olhavam dos cartazes, dos postes e dos muros. Ao redor, muitos polícias, muitos soldados, muita vigilância. Depois era a vez da minha mãe votar. Sem que eu soubesse, aqueles dias estavam a moldar a minha consciência. Foi assim que fui entronizado na cidadania.

Na escola, algumas professoras praticavam um acto de coragem que só fui compreender anos mais tarde. Falavam de determinadas coisas que não podiam ser ditas abertamente. Deixavam pistas. Contavam histórias incompletas. Faziam perguntas em vez de respostas. Queriam que soubéssemos dos segredos. Queriam que pensássemos. Queriam que entendêssemos que existia uma diferença entre a verdade e a versão oficial.

Com o tempo vieram as leituras, os estudos, os professores, os amigos e as descobertas inevitáveis da juventude. Aos poucos comecei a compreender o que realmente significava viver sem liberdade. Descobri o que era a ditadura, o que era a censura e o que era o medo. Conheci pais, tios e irmãos de amigos que haviam sido perseguidos. Ouvi histórias de desaparecidos políticos. Histórias que os livros escolares raramente contavam com a profundidade necessária.

Quando cheguei ao segundo grau, o actual ensino médio, a ditadura estava formalmente enfraquecida, mas os seus métodos continuavam vivos. Várias vezes, no regresso para casa depois das aulas, eu e amigos fomos parados por agentes de segurança. Gritos, berros, ameaças, tapas e revistas faziam parte do ritual. As bolsas eram despejadas no chão e livros, cadernos e documentos espalhavam-se pela calçada enquanto éramos tratados como suspeitos apenas por sermos jovens. Quem não viveu aquele tempo dificilmente compreenderá o que significa crescer sabendo que o Estado pode humilhar um cidadão sem explicação.

Vieram então os ventos da abertura política. Lenta. Lentíssima. Controlada. A sociedade queria muito mais do que o regime estava disposto a conceder. E veio a campanha das Diretas Já. Foi um dos momentos mais extraordinários da história brasileira. Milhões de pessoas foram às ruas exigir o direito elementar de escolher o presidente da República.

Em 1984 veio a derrota da Emenda Dante de Oliveira no Congresso Nacional. Lembro-me da tristeza. Lembro-me da frustração. Lembro-me da sensação colectiva de que o Brasil tinha perdido uma oportunidade histórica. Contudo, a pressão popular tornara-se impossível de ignorar.

A eleição indirecta de Tancredo Neves representou uma saída negociada para o regime militar. Uma aliança necessária, mas também perigosa. Uma aliança feita de acordos e concessões. Tancredo foi eleito. O Brasil comemorou. Mas a alegria transformou-se rapidamente em choque. Ele adoeceu antes da posse e morreu sem assumir efectivamente a Presidência da República. José Sarney, antigo integrante da Arena e convertido ao MDB, tornou-se presidente. Era a transição possível. Não a ideal. A possível.

No final daquele mesmo ano formei-me no segundo grau. A música escolhida pela turma para a formatura foi “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré. Aquela canção era mais do que música. Era um símbolo. Era uma declaração. Era um hino para uma geração que acreditava estar deixando para trás os anos de chumbo. Cantávamos aqueles versos com a emoção de quem imaginava que a liberdade finalmente havia vencido.

Hoje, mais de quatro décadas depois, uma das grandes dores que carrego é perceber que alguns daqueles colegas que cantavam Vandré ao meu lado passaram a acreditar em mentiras produzidas e distribuídas em massa pelas redes sociais. Pessoas que celebravam a liberdade passaram a defender ideias autoritárias. Pessoas que cresceram ouvindo falar dos perigos da censura passaram a atacar jornalistas. Pessoas que conheceram os abusos da ditadura passaram a relativizar a própria ditadura. Muitos não racionalizam. Não investigam. Não verificam. Apenas odeiam. É uma das maiores tragédias do nosso tempo.

O meu primeiro voto directo aconteceu em 1986, nas eleições para governadores, deputados e senadores. A democracia ainda aprendia a caminhar. Ainda havia fraudes. Ainda havia esquemas. Ainda havia práticas herdadas do regime militar. O voto era em papel, os mecanismos de controlo eram frágeis e muitos vícios autoritários permaneciam vivos em estruturas do Estado.

O primeiro voto para presidente da República veio em 1989. Foi uma eleição histórica, com um enorme espectro político representado. Lula, Leonel Brizola, Mário Covas, Roberto Freire, Fernando Collor, Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves, Afif Domingos e Ronaldo Caiado disputavam não apenas votos, mas diferentes projectos para o Brasil.

Votei em Mário Covas no primeiro turno. No segundo turno votei em Lula. Fernando Collor venceu. E o Brasil perdeu.

Poucos anos depois fui para as ruas exigir o seu impeachment. Ali compreendi definitivamente aquilo que não queria para o meu país. E também compreendi o lado da história em que desejava permanecer.

Desde então votei em Lula em todas as eleições presidenciais em que foi candidato. Faço-o por convicção. Vejo nele um democrata. Um homem que saiu do sertão duro do Nordeste brasileiro para alcançar uma posição singular na história política mundial. Um líder cuja linguagem é compreendida por milhões porque nasce das experiências reais do povo. Os preconceitos cultivados contra ele durante décadas nunca conseguiram afastá-lo dos seus objectivos nem apagar a sua relevância histórica.

Ao longo dessa caminhada, tornei-me jornalista. Um jornalista independente, sem amparo de grandes grupos económicos ou interesses partidários. Escolhi o caminho muitas vezes mais difícil: o da autonomia, da crítica e da liberdade de pensamento.

Por causa desse trabalho, fui perseguido, pressionado e ameaçado mais de uma vez. Conheço o preço de investigar, questionar e publicar aquilo que determinados sectores preferiam manter escondido. Sei o que significa enfrentar tentativas de intimidação e silenciamento. Mas nunca recuei. Nunca fugi da luta.

Também conheci a política para além da cobertura jornalística. Fui candidato, não pela busca de cargos ou privilégios, mas pela convicção de que a cidadania exige participação directa. Conheci a política por fora e por dentro. Vi as suas grandezas e as suas misérias. Convivi com pessoas verdadeiramente comprometidas com o interesse público e com outras movidas apenas pela ambição e pelo poder.

Talvez por isso eu me preocupe tanto com o Brasil de hoje.

Os mais de vinte anos de ditadura deixaram cicatrizes profundas no país. Retiraram de parcelas da população a capacidade de debater política com serenidade. Ensinaram o medo. Estimularam o conformismo. Favoreceram estruturas de poder económico que continuaram pressionando trabalhadores e movimentos sociais. As mentiras de ontem prepararam o terreno para as mentiras de hoje.

A diferença é que agora existe a internet. As redes sociais transformaram-se num gigantesco amplificador de desinformação. São como um saco de penas aberto ao vento. Depois que as penas se espalham, ninguém consegue recolhê-las todas. O extremismo político cresce em várias partes do mundo alimentado por ódio, teorias conspiratórias, manipulação emocional e revisões oportunistas da história.

Ao mesmo tempo, assistimos ao crescimento de um pentecostalismo político radical que, na minha opinião, pouco tem a ver com fé e muito com poder. Não se trata de Deus. Trata-se de influência, dinheiro, controlo social e ocupação de espaços políticos. Isso produz estragos profundos no tecido democrático e nas relações humanas.

Também vemos o avanço de forças que normalizam a violência política, relativizam a tortura, atacam instituições democráticas e convivem demasiadas vezes com milícias, organizações criminosas e interesses obscuros que corroem o Estado por dentro. Quem pensa que isso não tem relação com o passado não compreendeu a história.

A ditadura que vivi provavelmente não regressaria com os mesmos generais, os mesmos discursos ou as mesmas fardas. Os tempos mudaram. As estratégias também. Mas continua presente a tentação autoritária de concentrar poder, enfraquecer instituições, desacreditar a imprensa, transformar adversários em inimigos e convencer cidadãos a renunciar à própria liberdade.

Por isso a memória tornou-se tão importante. Eu lembro das conversas sussurradas. Lembro das professoras corajosas. Lembro das revistas policiais. Lembro dos desaparecidos. Lembro das Diretas Já. Lembro da tristeza de 1984. Lembro da esperança de 1985.

Lembro porque vivi. E quem viveu tem o dever de testemunhar.

Neste domingo, daqui de Portugal, votarei pensando em tudo isso. Pensando no Brasil que desejo ver. Um Brasil democrático, plural, livre e solidário. Um Brasil comprometido com o SUS, com a educação pública, com a liberdade religiosa, com a liberdade de não ter religião, com os direitos individuais e com o respeito às diferenças.

Não quero um Brasil submetido ao obscurantismo, às milícias, ao crime organizado, aos interesses de quem lucra com a divisão da sociedade nem aos que transformam a política numa indústria de ódio. Porque a democracia não é perfeita. Mas é infinitamente melhor do que qualquer forma de autoritarismo.

Se cairmos novamente nas mãos daqueles que desprezam a liberdade, perseguem adversários, espalham o medo e utilizam a mentira como método político, muitos descobrirão tarde demais aquilo que a minha geração já aprendeu.

Ditaduras não chegam anunciando que são ditaduras. Chegam prometendo ordem. Chegam prometendo moralidade. Chegam prometendo salvar a nação. E, quando percebemos o que realmente são, já levaram embora parte da liberdade.

Os mais jovens podem conhecer esse período pelos livros. Eu não. Eu senti. Eu vivi. Eu lutei. E continuo, hoje como ontem, na trincheira da democracia. Que as forças do universo protejam o Brasil.

Porque o voto decide governos. Mas também decide o futuro da liberdade.

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