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E se Deus não estivesse na Igreja?

E se Deus não estivesse na Igreja?

Espinosa, Einstein e a difícil arte de reencontrar sentido num mundo cada vez mais distante

Vivemos na época da proximidade instantânea. Com um simples toque no telemóvel falamos com alguém do outro lado do mundo, acompanhamos guerras em continentes distantes, vemos fotografias de lugares onde talvez nunca iremos. No entanto, paradoxalmente, parece que nunca estivemos tão longe uns dos outros. E talvez, mais grave ainda, tão longe de nós próprios.

Corremos. Corremos muito. Corremos para o trabalho, para os compromissos, para as contas, para as notícias, para as preocupações. Corremos tanto que raramente nos perguntamos para onde estamos realmente a ir. A modernidade ensinou-nos a conquistar o mundo, mas esqueceu-se de nos ensinar a habitar a nossa própria alma.

Quando olhamos à nossa volta, encontramos pessoas exaustas. Não necessariamente de esforço físico, mas de uma fadiga mais profunda. A fadiga de quem perdeu o sentido das coisas simples.

Uma criança a rir. Uma árvore movida pelo vento. Um fim de tarde sem pressa. Uma conversa verdadeira. Parece pouco. Mas talvez seja aí que a vida acontece.

Albert Einstein, um dos maiores génios da Humanidade, afirmava acreditar no Deus de Espinosa. Não falava de um Deus que distribui prémios e castigos ou que escolhe favoritos entre os homens. Referia-se antes à ordem misteriosa do Universo, à harmonia que existe por detrás das estrelas, da matéria e da própria vida. Quanto mais estudava o cosmos, mais humilde se tornava.

É curioso. Nós, que sabemos tão pouco, passamos a vida cheios de certezas. Einstein, que sabia imensamente mais do que qualquer um de nós, passou a vida maravilhado com o mistério. Talvez a sabedoria comece exactamente aí: quando deixamos de acreditar que compreendemos tudo.

Espinosa via Deus na Natureza. Na chuva. Nas árvores. Nos rios. No movimento dos planetas. E também na capacidade humana de amar, compreender e criar. De certa forma, dizia-nos algo revolucionário: não estamos separados da vida. Somos parte dela.

Tal como uma gota pertence ao oceano. Tal como uma folha pertence à árvore. Tal como uma estrela pertence à galáxia. Mas o ser humano moderno parece empenhado em esquecer esta ligação. Sentimo-nos isolados. Competimos incessantemente. Construímos muros invisíveis. Transformamos diferenças em divisões.

E acabamos frequentemente por olhar para o outro como estranho, quando na verdade partilhamos as mesmas fragilidades, os mesmos medos e as mesmas esperanças.

Talvez por isso exista tanta solidão. Não a solidão física, mas aquela que persiste mesmo rodeada de gente. A solidão de quem deixou de sentir pertença. A solidão de quem já não se reconhece na humanidade dos outros.

Espinosa e Einstein, cada um à sua maneira, convidam-nos ao mesmo exercício: recuperar o espanto. Voltar a olhar para o céu. Voltar a escutar. Voltar a sentir. Voltar a perceber que fazemos parte de algo infinitamente maior do que os nossos problemas quotidianos.

Porque a vida não é apenas aquilo que possuímos. A vida é aquilo que somos capazes de sentir. E talvez a felicidade não esteja na conquista do mundo, mas na reconciliação com ele.

Em tempos de gritos, reaprender o silêncio. Num tempo de divisões, reaprender a empatia. Em tempos de distância, reaprender a proximidade. Talvez seja esse o verdadeiro caminho. Não para encontrar Deus. Mas para encontrar a nossa melhor humanidade.

Confesso que também eu, Salvador Neto, me revejo profundamente nesta visão. Tal como Einstein, acredito no Deus de Espinosa. Não num ser distante que vigia os homens do alto dos céus, mas numa presença que se manifesta na beleza da natureza, na inteligência do universo, na consciência humana e na extraordinária capacidade que temos para amar, criar e compreender.

Talvez Deus não esteja separado da vida. Talvez Deus seja a própria vida. E talvez, quando aprendermos novamente a contemplar, descubramos que nunca estivemos verdadeiramente sós.


Deus segundo Espinosa

“Para de estar a rezar e a bater no peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes da tua vida. Quero que cantes, que te divirtas e que desfrutes de tudo o que fiz para ti.

Para de frequentar esses templos sombrios, frios e construídos por ti próprio, e dizer que são a minha casa. A minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde vivo e onde expresso o meu amor por ti.

Para de me culpar pela tua vida miserável. Eu nunca te disse que eras pecador. Para de ter tanto medo. Eu não te julgo, não te critico, nem me zango. Não castigo nem recompenso. Tu és absolutamente livre.

Ama. Vive. Maravilha-te. E lembra-te: eu não estou longe, separado do mundo. Eu sou a própria vida.”

Nota do autor: O texto acima é amplamente divulgado como “Deus segundo Espinosa”, embora não exista evidência histórica de que tenha sido escrito literalmente pelo filósofo. Trata-se de uma adaptação moderna inspirada no seu pensamento.

Salvador Neto
Jornalista e escritor

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