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OMS alerta para crise silenciosa: dois em cada três jovens europeus sofreram violência na infância

OMS alerta para crise silenciosa: dois em cada três jovens europeus sofreram violência na infância

Relatório da OMS revela que dois em cada três jovens europeus sofreram abusos, negligência ou violência na infância. Especialistas alertam que o problema transcende a saúde mental e representa uma crise social, económica e humana de grandes proporções.

As cicatrizes mais profundas nem sempre são visíveis. Muitas vezes, escondem-se atrás de trajetórias interrompidas, dificuldades escolares, relações fragilizadas e problemas de saúde mental que acompanham uma pessoa durante toda a vida. Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) lança luz sobre uma realidade preocupante: dois em cada três jovens europeus afirmam ter sofrido abusos, negligência, violência doméstica ou outras experiências adversas durante a infância.

O estudo, realizado com 26 mil pessoas entre 18 e 30 anos na União Europeia, Noruega e Islândia, mostra que a violência infantil está longe de ser um fenómeno isolado. Mais alarmante ainda é o facto de um em cada cinco participantes relatam ter vivido quatro ou mais experiências traumáticas durante a infância. Entre estes jovens, mais de 76% afirmaram necessitar de apoio profissional na área da saúde mental.

Os números ajudam a compreender uma realidade frequentemente ignorada pelas estatísticas tradicionais. A infância, período que deveria representar proteção, aprendizagem e desenvolvimento, transforma-se para milhões de crianças num espaço de insegurança e sofrimento. E o impacto não termina quando a infância acaba.

Segundo a OMS, indivíduos expostos a múltiplas adversidades apresentam maior risco de abandono escolar, desemprego e pobreza. Revelam ainda menor confiança nas outras pessoas e um sentimento reduzido de pertença à comunidade.

A questão ganha relevância num momento em que diversos países europeus enfrentam desafios ligados à saúde mental, à violência juvenil e ao enfraquecimento dos laços sociais. O estudo sugere que muitos destes problemas podem ter raízes muito mais profundas do que se imagina.

Para Natasha Azzopardi-Muscat, diretora de Sistemas de Saúde da OMS Europa, não se trata apenas de uma questão individual. Quando uma criança cresce num ambiente marcado pela violência ou pela instabilidade familiar, as consequências acompanham-na na escola, no trabalho e nas relações interpessoais ao longo da vida.

O relatório também evidencia um ciclo preocupante. Jovens que sofreram abusos tendem a apresentar maior probabilidade de voltar a ser vítimas de violência, mas também de reproduzir comportamentos violentos. Muitos relatam igualmente terem sido alvo de ciberbullying durante a infância, demonstrando que os espaços digitais ampliam vulnerabilidades já existentes.

Por trás dos números existe uma dimensão humana impossível de ignorar. Cada estatística representa histórias de crianças que cresceram sem apoio adequado, sem proteção suficiente e, muitas vezes, sem voz. A violência infantil deixa de ser apenas um problema familiar para se tornar um desafio coletivo que afeta escolas, sistemas de saúde, tribunais, comunidades e economias inteiras.

Diante deste cenário, a OMS defende medidas estruturais para combater fatores que favorecem a perpetuação do problema, nomeadamente a pobreza, a exclusão social e a violência nas comunidades. A organização recomenda ainda uma atuação integrada entre os sistemas de saúde, educação, justiça e apoio social para identificar precocemente situações de risco e interromper o ciclo de sofrimento antes que ele alcance as gerações seguintes.

A mensagem do relatório é clara: proteger a infância não é apenas um imperativo moral. É um investimento no futuro das sociedades. Cada criança protegida representa menos violência, mais saúde, mais inclusão e maior esperança de construir comunidades verdadeiramente resilientes.

Quando dois terços de uma geração carregam marcas de sofrimento desde os primeiros anos de vida, a questão deixa de ser saber se existe um problema. A pergunta passa a ser quanto tempo a sociedade pode continuar a ignorá-lo.

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