Derrotado nas urnas, sob investigação e após prometer que cumpriria as determinações judiciais, Flávio Bolsonaro escolheu abandonar o país, reforçando um padrão recorrente dentro da família Bolsonaro quando confrontada com o avanço da Justiça
Por Salvador Neto
Menos de 48 horas depois de perder a eleição presidencial, Flávio Bolsonaro desapareceu da cena política brasileira e tudo indica que já se encontra nos Estados Unidos. A velocidade dos acontecimentos é, por si só, reveladora. Não houve tempo para reflexão, para reorganização política ou para um discurso de reconciliação com os eleitores depois da derrota. Houve apenas uma sucessão vertiginosa de acontecimentos: a derrota nas urnas, a pressão judicial, a promessa de que cumpriria as determinações impostas pelas autoridades e, por fim, a saída do país.
O mais grave é que a fuga não surge como um gesto repentino ou desesperado. Pelo contrário. Quanto mais informações emergem, mais se consolida a percepção de que havia um plano previamente concebido. As notícias sobre possíveis rotas de saída, os contactos internacionais, a expectativa de acolhimento nos Estados Unidos e a rapidez com que tudo aconteceu sugerem que o cenário de uma derrota eleitoral e de um subsequente afastamento do Brasil já era considerado muito antes de os resultados serem conhecidos.
Na segunda-feira, o senador ainda afirmava que cumpriria as determinações judiciais. Deixava implícita a ideia de que enfrentaria o processo, responderia às acusações e permaneceria no país. Durou pouco. Horas depois, já não estava onde dissera que estaria. É impossível ignorar o significado político desse comportamento. Quando um líder promete ficar e desaparece logo a seguir, não estamos apenas perante uma contradição. Estamos perante uma quebra de confiança.
A história torna-se ainda mais simbólica porque não é um episódio isolado. O pai procurou refúgio na embaixada da Hungria quando enfrentava crescente pressão judicial. O irmão estabeleceu-se nos Estados Unidos e passou a actuar politicamente a partir do exterior. Agora é o próprio Flávio Bolsonaro quem abandona o território nacional precisamente quando deveria responder às instituições brasileiras. O padrão é demasiado evidente para ser tratado como mera coincidência.
Durante anos, o bolsonarismo construiu a sua identidade política em torno da coragem, da força e do enfrentamento. Apresentou-se como um movimento que não recuava perante adversários, tribunais, imprensa ou instituições. Mas existe uma diferença entre o discurso e a realidade. A realidade mostra uma família política que parece extraordinariamente confortável a exigir resistência aos seus apoiantes e extraordinariamente desconfortável quando chega a hora de resistir ela própria.
Há, contudo, uma dimensão ainda mais profunda nesta história. Ao partir, Flávio Bolsonaro não abandonou apenas processos judiciais, investigações ou confrontos políticos. Abandonou os seus eleitores. Milhões de brasileiros votaram nele. Defenderam-no em discussões familiares. Mobilizaram-se nas ruas e nas redes sociais. Acreditaram que estavam a escolher um homem preparado para liderar o país e para enfrentar os momentos difíceis. A derrota faz parte da democracia. Fugir da derrota é outra coisa.
Os seus eleitores permaneceram no Brasil. Ele não. Os seus eleitores terão de continuar a defender publicamente as suas posições. Ele não. Os seus eleitores continuarão sujeitos às leis, aos tribunais e às instituições brasileiras. Ele escolheu colocar um oceano entre si e essas mesmas instituições. É aqui que a fuga deixa de ser apenas uma questão judicial e passa a ser uma questão moral e política. Porque um líder não é testado quando vence. É testado quando perde.
E Flávio Bolsonaro não perdeu apenas uma eleição. Perdeu a oportunidade de demonstrar coragem na derrota, de provar confiança na própria inocência e de honrar a confiança de milhões de brasileiros que acreditaram nele.
Se amanhã falar a partir dos Estados Unidos, como tudo indica, a imagem ficará completa. Um candidato que pediu votos ao Brasil, perdeu no Brasil, enfrentou acusações no Brasil e, em vez de permanecer ao lado daqueles que o seguiram, escolheu explicar-se a partir do estrangeiro.
Talvez seja esta a fotografia política que ficará para a História. Não a de um patriota sob perseguição. Não a de um líder que resistiu. Mas a de um homem que pediu a confiança de milhões de brasileiros, sofreu uma derrota nas urnas e, menos de 48 horas depois, deixou para trás o país, os eleitores e as responsabilidades que jurou enfrentar.
Porque há derrotas que se explicam pelos votos. Mas há fugas que acabam por se explicar pelo medo. Esperemos as próximas notícias.






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