Uma leitura inaugural que abriu duas portas — e nenhuma delas voltou a fechar
- por Salvador Neto
Há livros que chegam como visitas anunciadas. Outros entram pela porta entreaberta e, quando damos por isso, já estão sentados no centro da sala, a reorganizar o ar. O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo foi assim para mim — o meu primeiro Murakami, e talvez por isso tão inaugural, tão desconcertante, tão difícil de arrumar depois.
Comecei a leitura sem mapa. Não sabia que Murakami trabalha com a mesma naturalidade o absurdo e a ternura, o subterrâneo tecnológico e a fábula medieval, o humor seco e a melancolia que se infiltra devagar. E foi justamente essa ausência de preparação que tornou a experiência tão radical: descobri um autor que não pede explicações nem oferece garantias. Apenas abre duas portas e diz: entra.
A estrutura do romance — duas narrativas que se alternam como batimentos — foi o primeiro choque. Há um rigor quase musical na forma como os capítulos se sucedem, e eu, que reparo na paginação como quem lê uma partitura, notei algo que me acompanhou até ao fim: os capítulos do “País das Maravilhas” parecem ocupar mais espaço, mais densidade gráfica, enquanto os do “Fim do Mundo” respiram com outra cadência, como se o próprio livro modulasse o ritmo dos dois universos. Não sei se é intencional. Mas senti. E isso basta.
A partir daí, entreguei-me. Aceitei criaturas subterrâneas, sistemas de dados, sombras amputadas, unicórnios silenciosos. Aceitei que o impossível fosse narrado com a limpidez de quem descreve um gesto quotidiano. Aceitei que a lógica não fosse a do mundo, mas a da emoção — e que, no fundo, Murakami escreve sempre sobre aquilo que não sabemos nomear: identidade, memória, perda, solidão.
Quando fechei o livro, percebi que algo tinha mudado. Não apenas porque tinha lido Murakami pela primeira vez, mas porque tinha sido iniciado num modo de leitura que não se desaprende. Há autores que nos acompanham. Ele, não. Ele funda um território dentro de nós.
E talvez seja isso que permanece: a sensação de que também eu habito dois mundos — o que vivo e o que imagino — e que a fronteira entre ambos é tão fina quanto o papel onde Murakami imprimiu esta loucura luminosa.
Ficha técnica
Título: O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo Título original: Hard-Boiled Wonderland and the End of the World Autor: Haruki Murakami Género: Romance Prémio: Prémio Tanizaki






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