Estudo internacional publicado na revista The Lancet revela que a falta de coordenação e o negacionismo político agravaram o impacto da covid-19 no Brasil, com retrocesso histórico na saúde pública.
O Brasil perdeu 3,4 anos de expectativa de vida entre 2020 e 2023, segundo o Estudo Carga Global de Doenças, publicado na The Lancet Regional Health – Americas. A pesquisa, conduzida por cientistas de mais de 200 países, aponta o negacionismo institucional como um dos principais fatores para o aumento de mortes durante a pandemia.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, a rejeição às medidas de distanciamento social, o atraso na compra de vacinas e a promoção de medicamentos sem eficácia comprovada contribuíram para o colapso do sistema de saúde. “As autoridades enfraqueceram as orientações científicas”, afirmam os autores, que compararam o Brasil com vizinhos como Argentina e Uruguai — ambos com perdas menores.
A desigualdade regional também ficou evidente. Rondônia, Amazonas e Roraima registraram as maiores quedas na expectativa de vida, acima de cinco anos, enquanto estados do Nordeste, como Maranhão e Alagoas, tiveram reduções inferiores a dois anos. O desempenho melhor está ligado à criação de um consórcio científico nordestino, que coordenou medidas de contenção e monitoramento em tempo real, mostrando que a ciência salva vidas quando há vontade política.
O estudo destaca ainda que o Brasil, tradicionalmente referência em campanhas de vacinação, ficou atrás na imunização contra a covid-19. A demora na aquisição de vacinas e o foco em “tratamento precoce” sem base científica comprometeram a resposta nacional. Em comparação com países do Brics, como China e Índia, o desempenho brasileiro foi inferior, evidenciando o custo humano da desinformação.
Apesar do retrocesso recente, o país apresenta avanços estruturais: entre 1990 e 2023, a expectativa de vida cresceu 7,18 anos, e a mortalidade padronizada por idade caiu 34,5%. O Sistema Único de Saúde (SUS) e o Programa de Saúde da Família continuam sendo pilares essenciais, mas o desafio agora é reconstruir a confiança pública na ciência e combater a desinformação.
O relatório conclui que o negacionismo não é apenas uma postura ideológica — é uma ameaça concreta à vida. A pandemia mostrou que a desinformação mata tanto quanto o vírus, e que o futuro da saúde brasileira depende da capacidade de aprender com seus erros e fortalecer políticas baseadas em evidências.
Créditos: Matéria original de Tâmara Freire, Agência Brasil.






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