Apoie o jornalismo que te respeita.
Assine. Participe. Fortaleça.

Luiza Erundina: aos 91 anos, a força da experiência desafia o tempo e renova a política brasileira

Luiza Erundina: aos 91 anos, a força da experiência desafia o tempo e renova a política brasileira

Ex-prefeita de São Paulo, assistente social e defensora histórica dos direitos sociais, Erundina transforma a longevidade em símbolo de resistência democrática ao tornar-se a deputada estadual mais velha eleita no Brasil.

Num tempo em que a política frequentemente se rende à velocidade das redes sociais e à lógica da renovação permanente, a eleição de Luiza Erundina para a Assembleia Legislativa de São Paulo surge como uma poderosa afirmação de que a experiência continua a ter lugar na vida pública.

Aos 91 anos, a ex-prefeita de São Paulo foi eleita deputada estadual nas eleições de 2026, tornando-se a parlamentar estadual mais velha do país. Com 169.567 votos, conquistou uma das 94 cadeiras da Alesp e escreveu mais um capítulo numa trajetória marcada pela defesa dos direitos sociais, da democracia e da inclusão.

Nascida em 30 de novembro de 1934, em Uiraúna, no interior da Paraíba, Erundina construiu uma história que se confunde com as transformações políticas e sociais do Brasil contemporâneo. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraíba e mestre em Ciências Sociológicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ela percorreu um caminho improvável para uma jovem nordestina oriunda de uma região marcada por profundas desigualdades sociais.

A projeção nacional veio em 1988, quando se tornou a primeira mulher de esquerda eleita prefeita da cidade de São Paulo, assumindo o cargo em 1989. Naquele momento, sua vitória representou mais do que uma conquista eleitoral: simbolizou a ascensão de setores historicamente afastados dos centros de poder e reforçou a possibilidade de mobilidade social por meio da participação política.

Após a experiência na maior cidade do país, Erundina consolidou uma longa carreira no Congresso Nacional, exercendo sete mandatos como deputada federal. Durante esse período, participou de iniciativas que deixaram marcas concretas na legislação brasileira, como a aprovação da Lei das Brinquedotecas, que tornou obrigatória a instalação desses espaços em unidades hospitalares com atendimento pediátrico, e a criação de mecanismos que garantem às gestantes atendidas pelo SUS o direito de conhecer previamente a maternidade onde receberão assistência ao parto.

Também esteve envolvida em propostas voltadas para os direitos das mulheres e contribuiu para a valorização da cultura nordestina ao instituir o Dia Nacional do Forró.

A nova vitória eleitoral ganha um significado adicional num contexto em que o envelhecimento da população brasileira impõe novos debates sobre participação social e representação política.

Para a cientista política Jacqueline Pitanguy, ouvida pela Agência Brasil, a eleição de Erundina ajuda a combater o etarismo e a ideia de que o envelhecimento significa desaparecimento da vida pública. Segundo ela, a trajetória da parlamentar demonstra que a idade pode ser acompanhada de sabedoria, experiência e capacidade de contribuição para a sociedade.

Mais do que um símbolo de longevidade, Erundina chega à Assembleia Legislativa com uma agenda política definida. Entre as bandeiras que defende estão a ampliação do transporte público e da tarifa zero, a proteção dos direitos das mulheres, crianças e adolescentes, a democratização da comunicação, a participação popular nas decisões governamentais e a defesa dos direitos humanos. A parlamentar também sustenta a necessidade de políticas públicas universais nas áreas da saúde, educação e assistência social, mantendo coerência com as causas que marcaram sua atuação ao longo de décadas.

Em um cenário político frequentemente dominado por discursos de ruptura, Luiza Erundina prova que a renovação também pode vir da persistência. Sua eleição não é apenas um feito estatístico. É a afirmação de uma trajetória construída a partir do serviço público, da defesa dos mais vulneráveis e da crença de que a política continua a ser uma ferramenta de transformação social.

Aos 91 anos, Erundina volta ao centro do debate público não por desafiar o tempo, mas por demonstrar que compromisso, coerência e dedicação à causa coletiva permanecem qualidades raras e indispensáveis na democracia brasileira.

Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.